Na contramão da volta aos escritórios, fintechs apostam no trabalho remoto para crescer
Z.ro Global Payments e Pluggy mantêm equipes distribuídas pelo Brasil e exterior e mostram como flexibilidade, tecnologia e novos modelos de gestão podem acompanhar a expansão dos negócios
Enquanto empresas de diferentes setores intensificam o retorno dos funcionários aos escritórios, duas fintechs brasileiras seguem na direção oposta. O Z.ro Global Payments e a Pluggy mantêm o trabalho remoto como principal modelo de operação, mesmo diante da expansão de suas equipes e do crescimento do faturamento. Para ambas, a possibilidade de contratar profissionais independentemente da localização geográfica deixou de ser uma solução adotada durante a pandemia e passou a integrar a estratégia de negócios.
As empresas chegaram a esse formato por caminhos diferentes. O Z.ro experimentou o regime híbrido após o período mais crítico da crise sanitária, mas decidiu retomar o trabalho integralmente remoto depois de consultar seus colaboradores. Já a Pluggy, fundada durante a pandemia, estruturou suas atividades desde o início para funcionar com equipes distribuídas.
Os resultados financeiros acompanham essa estratégia. O Z.ro Global Payments projeta encerrar 2026 com crescimento de 50% no faturamento e já contabiliza uma receita anual contratada de R$ 200 milhões para 2027. A Pluggy, por sua vez, estima alcançar faturamento de R$ 25 milhões neste ano, superando a previsão inicial de triplicar a receita registrada em 2025.
A opção pelo trabalho a distância contrasta com o movimento observado no mercado brasileiro. Segundo a Pesquisa de Tendências 2025 da Catho, realizada com 493 profissionais, 73% das organizações consultadas adotavam o regime totalmente presencial, enquanto 69% pretendiam manter esse formato ao longo daquele ano.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também apontam uma redução na participação do home office no mercado de trabalho. Entre 2022 e 2024, a proporção de profissionais que trabalhavam de casa caiu de 8,4% para 7,9%, o equivalente a aproximadamente 6,6 milhões de pessoas em 2024.
Trabalho remoto amplia possibilidades de contratação
No Z.ro Global Payments, techfin especializada em soluções financeiras para grandes empresas, a flexibilidade geográfica acompanha o crescimento da operação. Atualmente, a companhia reúne 180 colaboradores distribuídos por pelo menos 15 localidades brasileiras e outros países. A expectativa é chegar a 200 profissionais até dezembro de 2026.
“Essa não foi uma decisão baseada apenas em preferência. Cruzamos o que ouvimos das pessoas com as necessidades da operação. O remoto deixou de ser uma resposta emergencial para se tornar um modelo de gestão: amplia o acesso a profissionais de diferentes regiões, favorece a retenção e permite crescer sem restringir as contratações às cidades onde temos bases físicas”, afirma Taynah Carvalho, diretora de Recursos Humanos do Z.ro Global Payments.
Na Pluggy, plataforma especializada na agregação de dados financeiros de pessoas jurídicas, o modelo remoto também permite reunir profissionais de diferentes regiões. A empresa conta com aproximadamente 50 integrantes no Brasil, na Argentina e em países europeus.
Embora as contratações sejam geralmente concentradas no território brasileiro por questões operacionais e trabalhistas, a localização dos profissionais não representa uma exigência absoluta.
“O remoto faz parte da arquitetura operacional da Pluggy. Trabalhar assim exige processos, responsabilidades e fluxos de informação bem definidos”, afirma Victor Braga, cofundador da Pluggy.
Além de ampliar o acesso a talentos, a possibilidade de trabalhar remotamente tem impacto sobre a permanência dos profissionais nas organizações.
Uma pesquisa do Núcleo de Estudos de Comportamento e Gestão de Pessoas do Insper, realizada entre março e abril de 2025 com 1.432 participantes, revelou que 93% dos profissionais que trabalhavam remotamente cinco dias por semana considerariam trocar de emprego caso fossem obrigados a retornar ao presencial integral. Entre aqueles que tinham direito a apenas um dia de home office, 64% também cogitariam deixar a empresa diante da perda dessa flexibilidade.
No Z.ro, os indicadores internos mostram uma evolução positiva no período de consolidação do modelo remoto. A nota da pesquisa de engajamento passou de 8,73, em 2022, para 9,32, em 2026, em uma escala de zero a dez.
Na primeira participação da companhia na avaliação do Great Place to Work, realizada neste ano, o resultado foi de 97 pontos em 100, com adesão superior a 90% dos colaboradores. A empresa também registra avaliação de 4,4 no Glassdoor e taxa de desligamento voluntário próxima de 1%.
Embora esses indicadores não permitam atribuir os resultados exclusivamente ao home office, eles mostram que a expansão da operação tem ocorrido em paralelo à manutenção de índices elevados de satisfação e retenção.
Escritórios deixam de ser obrigatórios e ganham novas funções
A adoção do trabalho remoto não significa que as duas fintechs tenham abandonado completamente os espaços físicos. A diferença está na finalidade dessas estruturas, utilizadas principalmente para reuniões, integração entre equipes e relacionamento com clientes e parceiros.
O Z.ro mantém duas bases em Recife, além de unidades no Rio de Janeiro e na Suíça. Em agosto de 2026, a empresa também inaugurou um escritório na Avenida Faria Lima, em São Paulo, um dos principais centros financeiros do país.
O novo espaço pode ser utilizado voluntariamente pelos colaboradores e funciona como ponto de encontro para atividades presenciais. Não existe exigência de comparecimento periódico nem escala obrigatória.
“Na Faria Lima, ganhamos proximidade com clientes, parceiros e o mercado financeiro. A estrutura está disponível para as situações em que a interação presencial acrescenta valor, mas não é o centro da operação cotidiana”, explica Taynah.
A Pluggy segue uma abordagem semelhante. A empresa dispõe de um escritório, enquanto parte dos profissionais utiliza espaços de coworking conforme suas necessidades. A presença física pode ser incentivada em eventos e atividades específicas, mas não faz parte de uma rotina obrigatória.
Esse modelo altera o papel tradicional dos escritórios, que deixam de concentrar todas as atividades profissionais e passam a funcionar como ambientes de colaboração e relacionamento em situações nas quais o contato presencial oferece benefícios adicionais.
Gestão e cultura organizacional são desafios do modelo remoto
Apesar das vantagens relacionadas à flexibilidade e à contratação de talentos, manter equipes distribuídas exige adaptações na comunicação, na liderança e na construção da cultura organizacional.
Um dos principais desafios está em preservar os vínculos entre profissionais que não compartilham diariamente o mesmo ambiente de trabalho.
Para estimular a integração, o Z.ro realiza encontros itinerantes em cidades com maior concentração de colaboradores e promove anualmente o Z.ro Day, uma imersão que reúne profissionais de diferentes regiões do Brasil durante um fim de semana.
A companhia também organiza reuniões gerais mensais, nas quais a liderança e as áreas apresentam resultados, prioridades e projetos em andamento. Outra iniciativa é uma newsletter interna dedicada a novidades da operação, chegada de profissionais, projetos e ações de reconhecimento.
O informativo registra leitura média de 85% da equipe, percentual que chegou a 96% nas edições relacionadas ao Z.ro Day.
“A integração no Z.ro prevê ainda um período inicial de adaptação ao home office, inclusive para líderes e executivos vindos de organizações presenciais. Há mais de dois anos, a companhia também mantém uma parceria especializada em gestão psicológica, com avaliações e treinamentos semestrais, e está em processo de certificação como empresa psicologicamente segura”, conta Taynah.
Na Pluggy, a organização do trabalho depende de processos estruturados, reuniões periódicas de planejamento e definição dos canais de comunicação mais adequados para cada atividade. Plataformas integradas permitem que informações, decisões e responsabilidades permaneçam acessíveis aos profissionais, inclusive quando os projetos envolvem diferentes áreas.
A companhia também realiza encontros presenciais periódicos para fortalecer o relacionamento entre os integrantes da equipe.
“Nós procuramos reunir toda a equipe aproximadamente duas vezes por ano. Os offsites priorizam atividades informais e o relacionamento entre os participantes, sem transformar a ocasião em uma sequência de reuniões de trabalho”, declara Braga.
Flexibilidade exige confiança e critérios de desempenho
A experiência das duas fintechs indica que o funcionamento de equipes remotas depende de uma estrutura de gestão capaz de combinar autonomia, acompanhamento de resultados e comunicação eficiente.
Nesse contexto, ferramentas digitais são importantes para organizar tarefas, compartilhar informações e coordenar atividades, mas não substituem a necessidade de processos claros e lideranças preparadas para administrar profissionais distribuídos geograficamente.
Para empresas em expansão, o modelo também permite ampliar o recrutamento para além das cidades onde existem escritórios, reduzindo a dependência de mercados locais de trabalho.
Ao mesmo tempo, o crescimento das equipes torna mais importante estabelecer mecanismos de integração, acompanhamento de desempenho e desenvolvimento profissional.
“O remoto não funciona com microgerenciamento nem com a simples transferência da rotina do escritório para uma sequência de videochamadas. Exige confiança, transparência, comunicação constante e critérios claros de desempenho”, finaliza Taynah.
