Redução da faixa de 6 GHz para Wi-Fi pode comprometer expansão da internet no Brasil, alerta DSA
Entidade questiona decisão da Anatel e aponta que restrição pode afetar provedores regionais, investimentos em fibra óptica e benefícios econômicos estimados em bilhões de dólares
A decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de reduzir a parcela da faixa de 6 GHz destinada ao Wi-Fi pode comprometer a expansão da banda larga no Brasil, especialmente em municípios atendidos por provedores regionais. O alerta é da Dynamic Spectrum Alliance (DSA), organização internacional que defende o uso eficiente do espectro radioelétrico e encaminhou um posicionamento formal à agência reguladora.
A discussão envolve a faixa de frequências entre 5.925 MHz e 7.125 MHz, originalmente destinada integralmente ao uso não licenciado em 2021. Com a mudança regulatória, o espaço disponível para tecnologias como Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 fica limitado aos 500 MHz inferiores, enquanto os 700 MHz superiores poderão ser destinados aos sistemas de telecomunicações móveis internacionais (IMT).
Segundo a DSA, a redução pode criar gargalos nas conexões domésticas e empresariais. Isso porque, embora os provedores tenham ampliado suas redes de fibra óptica, a distribuição da internet dentro dos imóveis depende cada vez mais de redes Wi-Fi capazes de acompanhar velocidades superiores a 1 Gbps.
A entidade argumenta que a restrição afeta principalmente os pequenos e médios provedores, responsáveis por parte importante da expansão da conectividade no interior do país. Sem espectro suficiente, a capacidade das redes sem fio pode se tornar um obstáculo ao aproveitamento dos investimentos realizados em infraestrutura óptica.
Impacto econômico pode superar US$ 242 bilhões
A DSA também chama atenção para os possíveis efeitos econômicos da decisão. De acordo com estudo citado pela organização, a manutenção dos 1.200 MHz da faixa de 6 GHz para uso não licenciado poderia gerar benefícios acumulados de US$ 689,18 bilhões à economia brasileira entre 2024 e 2034.
No cenário de divisão do espectro, com 500 MHz destinados ao Wi-Fi e 700 MHz reservados aos sistemas móveis, o benefício econômico estimado cai para US$ 447,15 bilhões no mesmo período.
A diferença entre os dois cenários chega a US$ 242,03 bilhões, considerando as projeções apresentadas pela entidade.
Além das consequências econômicas, a DSA avalia que a mudança introduz incertezas regulatórias capazes de desestimular investimentos de fabricantes de equipamentos e empresas do setor de telecomunicações.
Wi-Fi de maior potência pode ampliar cobertura
Apesar das críticas à redução do espectro, a DSA considera positivas duas iniciativas recentes da Anatel voltadas à ampliação das possibilidades de utilização da faixa de 6 GHz.
A Consulta Pública nº 41/2026 trata dos requisitos técnicos para equipamentos Wi-Fi de Potência Padrão (Standard Power), enquanto a Consulta Pública nº 42/2026 aborda os sistemas de Coordenação Automática de Frequências (AFC).
Na prática, essas tecnologias permitem ampliar a cobertura de redes Wi-Fi em ambientes internos e externos, incluindo praças públicas, estabelecimentos comerciais, propriedades rurais e regiões periurbanas.
O AFC utiliza informações geográficas e mecanismos automatizados para ajustar canais e níveis de potência, permitindo que redes Wi-Fi compartilhem frequências sem provocar interferências prejudiciais aos serviços licenciados já existentes.
Para os provedores regionais, a combinação dessas tecnologias pode representar uma alternativa para ampliar a cobertura de internet com menor necessidade de investimentos adicionais em infraestrutura.
Entidade defende compartilhamento do espectro
Em vez de restringir permanentemente a utilização da faixa superior de 6 GHz, a DSA propõe que a Anatel avalie mecanismos de compartilhamento dinâmico entre redes Wi-Fi e sistemas móveis.
A organização cita como referência o Reino Unido, onde a autoridade reguladora Ofcom adotou uma abordagem que permite ampliar o acesso ao Wi-Fi enquanto mantém aberta a possibilidade de utilização futura do espectro por serviços móveis.
Outro ponto levantado pela entidade envolve o risco de interferências entre redes Wi-Fi e sistemas IMT que operem em frequências adjacentes. Dependendo das condições técnicas, poderá ser necessária a criação de faixas de proteção, reduzindo ainda mais a capacidade efetivamente disponível para as conexões sem fio.
A DSA considera que essas questões precisam ser avaliadas antes da definição definitiva dos limites entre os diferentes serviços.
Decisão pode afetar evolução do Wi-Fi 7 e Wi-Fi 8
A disponibilidade de espectro também é considerada estratégica para o desenvolvimento das próximas gerações de conectividade sem fio.
Tecnologias como Wi-Fi 7 e o futuro Wi-Fi 8 dependem de canais de maior largura de banda para oferecer altas taxas de transmissão, baixa latência e melhor desempenho em ambientes com muitos dispositivos conectados.
Essas características são importantes para aplicações como telemedicina, transmissão de vídeo em tempo real, automação industrial e cidades inteligentes.
Na avaliação da DSA, preservar a faixa integral de 6 GHz, inclusive por meio de mecanismos de compartilhamento, permitiria ao Brasil acompanhar a evolução dessas tecnologias sem comprometer a expansão das redes móveis.
A organização defende que a Anatel reavalie os impactos da decisão, considerando a importância dos provedores regionais para a inclusão digital, a necessidade de previsibilidade regulatória e os investimentos realizados no setor.
Para a entidade, o desafio está em conciliar a evolução das redes móveis com a demanda crescente por Wi-Fi de alta capacidade, evitando que a limitação do espectro se transforme em um obstáculo à expansão da conectividade no país.
