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Do sofá aos e-sports: como a tecnologia transformou os jogos multiplayer

Tela dividida, LAN houses, banda larga, servidores online e streaming mudaram a maneira de jogar e transformaram partidas entre amigos em competições globais

Houve um tempo em que jogar uma partida multiplayer exigia uma infraestrutura bastante simples: um console, dois ou mais controles, uma televisão e todo mundo na mesma sala. Algumas décadas depois, jogadores separados por milhares de quilômetros disputam partidas praticamente em tempo real enquanto milhões de pessoas acompanham campeonatos transmitidos pela internet.

A essência continua parecida, colocar pessoas para jogar umas contra as outras ou cooperar dentro do mesmo game. A tecnologia necessária para fazer isso, porém, mudou radicalmente.

O multiplayer passou pela tela dividida, pelas redes locais das LAN houses e pela internet doméstica até chegar a uma infraestrutura distribuída que envolve servidores, data centers, sistemas de matchmaking, redes de baixa latência, plataformas de streaming e computadores capazes de processar jogos competitivos em altas taxas de quadros por segundo.

Foi essa transformação que ajudou a levar uma atividade essencialmente doméstica para arenas lotadas e a criar o mercado de e-sports.

Quando multiplayer significava estar na mesma sala

Nos primeiros consoles e computadores pessoais, a proximidade física fazia parte da arquitetura do multiplayer.

Os participantes precisavam utilizar o mesmo equipamento ou máquinas conectadas por uma rede local. Nos consoles, isso significava compartilhar a televisão, muitas vezes com a tela dividida. Nos computadores, redes locais permitiram que várias máquinas participassem da mesma partida.

As LAN houses ampliaram esse modelo ao reunir dezenas de computadores conectados em um único espaço. No Brasil, esses estabelecimentos tiveram papel importante na popularização de jogos multiplayer em uma época na qual conexões domésticas rápidas ainda estavam longe de ser universais.

“A popularização da internet mudou profundamente a lógica dos jogos multiplayer. As Lan Houses se consolidaram como importantes pontos de encontro para partidas em rede local e, mais tarde, o multiplayer online eliminou a necessidade de que os jogadores estivessem no mesmo espaço físico. Esse movimento permitiu conectar pessoas de diferentes cidades e países, formando comunidades em torno de títulos competitivos e preparando o terreno para o crescimento dos e-sports”, explica Daniel Santarem, Gerente Sênior de Vendas e Marketing da ADATA.

Internet tirou o multiplayer da sala

A expansão da banda larga mudou a escala das partidas. Em vez de conectar jogadores dentro de uma residência ou LAN house, os games passaram a utilizar servidores capazes de reunir participantes de diferentes regiões.

Isso criou novos desafios técnicos.

Em uma partida competitiva, não basta que os computadores estejam conectados. Os comandos realizados pelo jogador precisam chegar ao servidor e retornar rapidamente, enquanto o sistema mantém sincronizado o estado da partida para todos os participantes.

A latência passou, portanto, a fazer parte do vocabulário dos jogadores.

Ao mesmo tempo, técnicas de matchmaking começaram a automatizar a formação das partidas, levando em consideração fatores como nível de habilidade, região e qualidade da conexão. Servidores distribuídos geograficamente ajudaram a diminuir a distância percorrida pelos dados.

O multiplayer deixava de ser apenas um recurso do jogo e começava a depender de uma infraestrutura online permanente.

Hardware também entrou na corrida dos milissegundos

A evolução não ocorreu apenas nas redes.

Processadores e placas gráficas mais rápidos aumentaram as taxas de quadros por segundo, enquanto monitores com frequências de atualização mais elevadas reduziram o intervalo entre os frames exibidos. SSDs diminuíram tempos de carregamento e sistemas com maior capacidade de memória passaram a lidar com jogos e recursos cada vez mais complexos.

No cenário competitivo, diferenças medidas em milissegundos passaram a importar.

“A evolução do multiplayer foi impulsionada tanto pela criatividade da indústria de games quanto pelo amadurecimento da infraestrutura tecnológica. Hoje, a expectativa dos jogadores vai além de simplesmente conseguir se conectar: envolve experiências responsivas e confiáveis, capazes de acompanhar partidas cada vez mais dinâmicas e competitivas”, avalia Santarem.

Essa busca por menor latência e maior estabilidade também influenciou periféricos, redes domésticas e a própria arquitetura dos jogos.

E-sports transformaram partidas em espetáculo

Quando grandes comunidades de jogadores passaram a se reunir em torno dos mesmos títulos competitivos, surgiu espaço para uma nova transformação.

Equipes profissionais, ligas, treinadores, patrocinadores, transmissões ao vivo e grandes premiações passaram a fazer parte do ecossistema. O multiplayer ganhou uma segunda audiência: pessoas que não estavam necessariamente jogando, mas assistindo a outras pessoas competir.

As plataformas de streaming foram fundamentais nessa etapa porque eliminaram outra barreira física. Se a internet já permitia que competidores jogassem de diferentes lugares, o vídeo online passou a permitir que milhões de espectadores acompanhassem essas partidas de praticamente qualquer lugar.

O Mundial de League of Legends de 2025 registrou pico de aproximadamente 6,75 milhões de espectadores simultâneos, segundo a Esports Charts. O VALORANT Champions 2025 chegou a cerca de 1,47 milhão.

Esses números representam o maior número de pessoas acompanhando cada competição simultaneamente em determinado momento e não a audiência acumulada de todo o evento.

A Grand View Research estimou o mercado global de e-sports em US$ 2,6 bilhões em 2025, com projeção de US$ 3,3 bilhões para 2026.

O sofá não desapareceu

Curiosamente, a ascensão do multiplayer online não eliminou a experiência que deu origem a tudo isso.

Jogos cooperativos locais, consoles com múltiplos controles e títulos desenvolvidos para reunir pessoas diante da mesma tela continuam existindo. O que mudou foi o tamanho do território disponível para jogar.

Uma partida multiplayer pode acontecer entre duas pessoas no mesmo sofá, entre dez computadores conectados em uma rede ou entre jogadores espalhados por continentes diferentes.

A tecnologia transformou principalmente a escala dessa interação. O multiplayer saiu de alguns metros de cabo entre controles e consoles para uma infraestrutura global na qual comandos atravessam redes e servidores em frações de segundo.

E talvez essa seja a maior transformação provocada por décadas de evolução tecnológica: os jogadores ficaram fisicamente mais distantes, enquanto os games trabalharam para fazer essa distância parecer cada vez menor.

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