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Capital inteligente para uma economia inteligente

A Inteligência Artificial acelera a inovação, mas ampliar sua adoção depende de crédito, investimento, compras públicas inovadoras e políticas públicas alinhadas à nova economia 

Por Camila Cristina Murta, Líder do Grupo de Trabalho de Compras Públicas da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)

A Inteligência Artificial costuma ser apresentada como um desafio tecnológico. Na prática, ela também representa um desafio financeiro.

Adotar IA deixou de significar apenas adquirir novas plataformas ou contratar soluções em nuvem. Empresas precisam investir em infraestrutura, integração de sistemas, qualidade dos dados, segurança cibernética, qualificação de profissionais, governança e revisão de processos. Em muitos casos, também precisam redesenhar produtos, serviços e modelos de negócio.

Essa transformação exige recursos compatíveis com a velocidade da inovação.

O estudo “Estratégias Digitais em Alta Performance: os vetores tecnológicos impulsionados pela IA”, realizado pela IDC para a ABES, mostra que esse movimento já está em curso. Segundo a pesquisa, que ouviu 107 líderes de TI de empresas com mais de 100 funcionários, 95% das empresas consultadas utilizam Inteligência Artificial, enquanto 86% pretendem ampliar seus i o orçamento de tecnologia de 2026. O levantamento também revela que a IA passou a orientar toda a estratégia tecnológica das organizações, fazendo com que infraestrutura, computação em nuvem, dados, aplicações corporativas e segurança deixem de disputar orçamento e passem a integrar uma mesma agenda de transformação.

Os números mostram que a questão deixou de ser se as empresas vão investir.

A discussão passa a ser como financiar essa transformação.

A economia baseada em Inteligência Artificial apresenta características diferentes dos ciclos anteriores de inovação. Grande parte do valor criado está concentrada em ativos intangíveis, como software, dados, algoritmos, propriedade intelectual e conhecimento. São ativos que impulsionam produtividade e competitividade, mas que ainda encontram pouco espaço nos critérios tradicionais de avaliação de crédito e investimento.

Esse descompasso cria um desafio importante.

Empresas que desenvolvem soluções inovadoras frequentemente encontram dificuldade para acessar recursos compatíveis com seu potencial de crescimento. Ao mesmo tempo, instituições financeiras e investidores precisam adaptar seus modelos para avaliar negócios cujo principal patrimônio está menos em máquinas, imóveis ou equipamentos, e mais na capacidade de gerar conhecimento, inovação e escala.

Nesse ponto, que políticas públicas e o próprio Estado, na condição de comprador, passam a exercer um papel estratégico.

Transformação digital vai além do esforço individual das empresas. Ela exige um ambiente favorável ao investimento, capaz de combinar instrumentos públicos e privados de financiamento, segurança jurídica, incentivos à inovação, estímulo à pesquisa e mecanismos que reduzam barreiras para organizações de diferentes portes.

Essa visão ganha ainda mais importância diante da velocidade da IA.

Com a adoção de IA praticamente universal entre as empresas pesquisadas, a capacidade de acessar recursos financeiros passa a influenciar diretamente a velocidade com que organizações conseguem inovar e competir. Em um cenário em que a tecnologia evolui continuamente, tempo também se transforma em vantagem competitiva.

Um instrumento de financiamento merece lugar central nesse debate: o poder de compra do Estado. As compras governamentais movimentam parcela relevante do PIB brasileiro e, quando orientadas à inovação, funcionam como financiamento pelo lado da demanda. Um contrato público assegura receita, valida a solução em escala, reduz o risco percebido por bancos e investidores e pode servir de lastro para operações de crédito. 

O país já dispõe das ferramentas. A encomenda tecnológica, prevista no art. 20 da Lei de Inovação (Lei nº 10.973/2004), permite ao poder público contratar o desenvolvimento de soluções que envolvem risco tecnológico. O Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI), criado pelo Marco Legal das Startups (Lei Complementar nº 182/2021), viabiliza o teste remunerado de soluções e o posterior fornecimento em escala. A Lei nº 14.133/2021 acrescentou o diálogo competitivo e a margem de preferência para bens e serviços resultantes de desenvolvimento e inovação tecnológica realizados no País. 

O desafio agora é de escala. Esses instrumentos ainda têm uso tímido, em grande parte pela insegurança de gestores públicos diante do risco inerente à inovação. Ampliar sua adoção exige capacitação, modelos contratuais de referência e uma cultura de controle que valorize a qualidade do processo decisório tanto quanto o resultado. Quando o Estado compra inovação com previsibilidade, ele também atrai capital privado para o ecossistema.

Esse é um dos debates centrais do ABES Summit 2026. O painel dedicado ao financiamento da nova economia discute como crédito, capital privado, políticas públicas, compras governamentais e instrumentos de fomento podem acelerar a transformação digital baseada em Inteligência Artificial. O objetivo é ampliar a compreensão de que inovação depende tanto da capacidade técnica quanto da existência de mecanismos capazes de financiar projetos com alto potencial de impacto.

A experiência da ABES ajuda a mostrar que esse desafio é anterior a IA, e ganhou uma nova dimensão com ela.

Ao longo de seus 40 anos, a Associação acompanhou diferentes momentos em que o acesso ao investimento definiu a velocidade da transformação tecnológica brasileira. Se, nas primeiras décadas, o desafio era ampliar o mercado de software e estimular a informatização das empresas, hoje a prioridade passa por criar condições para que organizações brasileiras possam desenvolver Inteligência Artificial, ampliar sua infraestrutura digital e competir em igualdade de condições em um mercado global.

Essa atuação vai além da produção de estudos e da defesa de políticas públicas. A ABES mantém iniciativas voltadas à aproximação entre empresas e fontes de financiamento, como o Guia de Fomento à Inovação, que reúne oportunidades de crédito, investimento e incentivos para projetos tecnológicos. Também promove o diálogo com instituições financeiras e agentes públicos de desenvolvimento, como demonstra a parceria firmada com a Caixa, que aproxima empresas de tecnologia das demandas de digitalização dos municípios e prevê condições diferenciadas de crédito para as associadas.

Essa agenda parte de uma compreensão simples: transformar conhecimento em inovação exige transformar boas ideias em projetos viáveis. E isso depende de capital.

Existe uma tendência de associar financiamento apenas ao crescimento das empresas. Na economia da Inteligência Artificial, ele também passa a determinar a capacidade de desenvolver competências, incorporar tecnologias, acelerar pesquisas, fortalecer infraestrutura e ampliar produtividade.

O país reúne talento, mercado consumidor e um ecossistema de inovação cada vez mais maduro. O próximo passo consiste em conectar esse potencial a mecanismos de financiamento e de compras públicas compatíveis com a velocidade da transformação digital. Na economia baseada em IA, capital passa a ser um dos principais fatores que determinam a capacidade de inovar, competir e transformar conhecimento em desenvolvimento econômico sustentável.

Participe do ABES Summit 2026!
Os temas abordados neste artigo estarão entre os debates do ABES Summit 2026, que será realizado no dia 27 de outubro, das 8h às 18h, no Teatro SESI/FIESP, em São Paulo. Em sua 16ª edição, o evento celebra os 40 anos da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e reúne lideranças empresariais, especialistas, representantes do poder público e profissionais de tecnologia para discutir o tema “Reinventar para competir na era da IA”.

A participação é gratuita, mediante inscrição prévia. Faça parte dessa discussão e acompanhe presencialmente os debates sobre o futuro da tecnologia e da competitividade brasileira.

Garanta sua inscrição: www.abessummit.com.br

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