Sem capacitação e políticas diferenciadas, a transformação digital tende a reforçar desigualdades produtivas já existentes
A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma tecnologia capaz de democratizar o acesso à inovação. Para as empresas brasileiras, porém, os dados revelam um cenário menos otimista. A tecnologia avança, mas seus benefícios se concentram nas organizações que já dispõem de pessoas qualificadas, estrutura tecnológica e capacidade para transformar informação em decisões e novos processos. Sem enfrentar essa diferença de condições, a atual onda de digitalização poderá ampliar, em vez de reduzir, a desigualdade produtiva.
A análise das cinco edições da pesquisa TIC Empresas realizadas entre 2017 e 2024, que reúnem mais de 27 mil observações, mostra duas realidades. De um lado, o acesso à internet alcança 99% das empresas e a computação em nuvem supera 80%. De outro, a adoção de tecnologias mais avançadas permanece restrita: somente cerca de 13% utilizam inteligência artificial, proporção praticamente inalterada entre 2021 e 2024. Big data, robótica industrial e impressão 3D também continuam concentrados em uma parcela reduzida do setor produtivo.
O porte da empresa é decisivo. A inteligência artificial está presente em 37,7% das grandes empresas, mas em apenas 10,3% das pequenas, uma diferença de 3,7 vezes. A distância não decorre somente da capacidade de investimento. Empresas mais avançadas possuem maior presença de especialistas, desenvolvem soluções internamente e estabelecem mais parcerias. Já entre as menos digitalizadas, uma parcela expressiva sequer reconhece utilidade para a IA em seu negócio. Trata-se, portanto, de uma barreira também organizacional e cognitiva.
A Figura a seguir evidencia que a adoção da inteligência artificial não ocorre de maneira uniforme entre as empresas. As diferenças de maturidade digital refletem desigualdades mais amplas de infraestrutura, qualificação e capacidade organizacional, que condicionam tanto o acesso às tecnologias quanto seu uso produtivo.

Esse quadro desaconselha políticas de transformação digital baseadas apenas em crédito, incentivos fiscais ou aquisição de equipamentos. Recursos financeiros são necessários, mas não criam, isoladamente, capacidade de absorver tecnologias. Comprar uma solução não significa incorporá-la à estratégia, redesenhar processos ou gerar produtividade. A adoção efetiva exige formação profissional, liderança, dados de qualidade, revisão de rotinas e conexão com universidades, centros tecnológicos e ecossistemas de inovação.
As empresas brasileiras também não formam um grupo homogêneo. A combinação de oito tecnologias digitais permite identificar perfis distintos, dos negócios praticamente excluídos da digitalização às organizações integradas em inteligência artificial. Cerca de dois terços das empresas estão nos grupos básicos ou retardatários. Ao mesmo tempo, o grupo mais integrado em IA mais que dobrou sua participação entre 2021 e 2024. O movimento é promissor, mas ocorreu sobretudo entre empresas que já haviam construído uma base digital, enquanto os segmentos menos preparados permaneceram praticamente estagnados.
A política industrial precisa reconhecer essas diferenças. Empresas avançadas demandam apoio para ganhar escala, integrar tecnologias e competir internacionalmente. As intermediárias precisam de suporte para converter infraestrutura básica em usos mais sofisticados. Para as retardatárias, o ponto de partida deve ser a capacitação gerencial e tecnológica, acompanhada de diagnóstico, assistência técnica e extensão digital. Aplicar o mesmo instrumento a todas tende a beneficiar quem já está mais próximo da fronteira.
A difusão da inteligência artificial oferece uma oportunidade relevante para elevar a produtividade brasileira. Mas tecnologia não corrige, por si só, desigualdades de capacidade; frequentemente, ela as reproduz. O desafio não é apenas aumentar o número de empresas que declaram usar IA, e sim assegurar que pequenas e médias empresas consigam incorporá-la de modo produtivo, responsável e conectado às suas necessidades. Caso contrário, a transformação digital modernizará uma parte da economia e deixará o restante ainda mais distante.
Darci de Borba é pesquisador doThink Tank da ABES, técnico de planejamento e pesquisa no Ipea, Doutorando em Administração na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e Mestre em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação.









