IA pode adicionar R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030, mas empresas ainda enfrentam desafios para gerar resultados
ABES Summit 2026 reuniu pela manhã lideranças do setor de tecnologia, indústria e governo para discutir os impactos da inteligência artificial na economia, nos modelos de negócio e no futuro do trabalho
A inteligência artificial (IA) pode acrescentar até R$ 1 trilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2030. Para que esse potencial se transforme em crescimento econômico, porém, o país precisará ampliar investimentos em infraestrutura digital, capacitação profissional e inovação, enquanto as empresas terão de rever seus modelos de negócio e a maneira como utilizam a tecnologia.
Esses foram alguns dos principais pontos discutidos na manhã desta terça-feira (27), durante o ABES Summit 2026, realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no Teatro do SESI-SP, na capital paulista.
Com o tema “Reinventar para competir na era da IA”, o evento reuniu representantes do poder público, executivos e especialistas para debater os desafios da transformação digital e as oportunidades de desenvolvimento econômico.
São Paulo anuncia prioridade para projetos de tecnologia e inovação
A abertura contou com a participação de Andriei Gutierrez, presidente da ABES; Felicio Ramuth, vice-governador de São Paulo; Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson Brasil, representando Paulo Skaf, presidente da Fiesp; e Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil, representando o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.
Durante sua participação, Ramuth anunciou que estará à frente dos projetos de tecnologia e inovação do governo paulista nos próximos quatro anos, com o objetivo de acelerar a transformação digital das secretarias estaduais.
“Eu vou estar à frente justamente dos projetos de tecnologia e inovação do nosso Governo de Estado, em todas as áreas”, afirmou.
O vice-governador também destacou que São Paulo concentra aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos em data centers e defendeu avanços na regulamentação do REDATA, regime voltado ao desenvolvimento da infraestrutura de processamento de dados.
Ramuth ainda alertou para os possíveis impactos da reforma tributária sobre empresas de software e serviços e defendeu uma regulamentação da inteligência artificial que preserve a capacidade de inovação e a competitividade do setor.
Para Andriei Gutierrez, a transformação digital precisa ocupar posição central nas políticas públicas dos próximos governos, com planejamento de longo prazo, governança e investimentos em infraestrutura.
“É uma tecnologia revolucionária que precisa estar lá, na estratégia, na revisão do negócio, na revisão, muitas vezes, de todo o modelo, de toda a concepção organizacional”, destacou o presidente da ABES.
Representando a Fiesp, Rodrigo Dienstmann defendeu que o Brasil aproveite a expansão da inteligência artificial para fortalecer sua capacidade de desenvolver tecnologias, em vez de permanecer apenas como consumidor de soluções internacionais.
Já Floriano Pesaro apresentou resultados da parceria entre ApexBrasil e Softex, que apoia 298 empresas brasileiras de tecnologia. Segundo os números divulgados, essas companhias registraram aproximadamente US$ 1,18 bilhão em exportações em 2025, crescimento de 48,7% no ciclo iniciado em 2023.
Durante a cerimônia, Paulo Skaf e Felicio Ramuth também foram anunciados como Embaixadores do Prêmio Brasil, País Digital 2026.
Entre investir em IA e gerar resultados, existe um abismo
O potencial de adicionar R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030 foi apresentado por Tania Cosentino, ex-presidente da Schneider Electric e da Microsoft no Brasil, atualmente conselheira do International Chamber of Commerce (ICC) e conselheira independente da WEG.
Durante a apresentação “O novo motor do valor: como a IA está redesenhando as empresas”, a executiva destacou que a adoção da tecnologia está avançando rapidamente, mas nem sempre se traduz em ganhos concretos.
Segundo pesquisa do Boston Consulting Group (BCG) citada por Tania, a proporção de organizações que capturam valor com inteligência artificial em escala passou de 5% para 50% em aproximadamente um ano.
O avanço, entretanto, não elimina as dificuldades para transformar projetos experimentais em iniciativas capazes de gerar resultados financeiros e vantagens competitivas.
“Entre fazer piloto e desbloquear valor, existe um abismo”, afirmou.
A executiva também chamou a atenção para os riscos associados à expansão dos agentes autônomos de IA. Conforme os indicadores apresentados, 42% das empresas estão avançando na adoção dessa tecnologia até 2030, enquanto apenas 5% contam com controles adequados para garantir uma operação segura.
“Estou vendo muita gente querendo gastar em IA e não querendo gastar em cyber. Isso é um grande erro que pode trazer consequências desastrosas para a sua organização”, alertou.
“O risco quem assume é você, não é o algoritmo.”
Outro desafio está na infraestrutura. Segundo Tania, o Brasil concentra aproximadamente 1% dos data centers mundiais. A ampliação dessa capacidade poderia movimentar R$ 90 bilhões em investimentos adicionais até 2030 e gerar mais de 55 mil empregos diretos e indiretos.
Para a executiva, aproveitar essas oportunidades exige uma estratégia nacional que articule infraestrutura, energia, desenvolvimento industrial, educação e pesquisa.
“O futuro do trabalho não é a IA contra o humano, é o humano mais a IA, trazendo um futuro melhor para todos”, concluiu.
Empresas precisam rever modelos de negócio para continuar competitivas
A necessidade de ir além da implementação de ferramentas foi aprofundada no painel “Seu modelo de negócio ainda funciona? Valor, competitividade e reinvenção na era da IA”.
O debate reuniu Cezar Taurion, consultor de tecnologia e CEO da Redcore; Gustavo Gierun, cofundador e CEO do Distrito; e Tania Cosentino, com moderação de Daniella Caverni, diretora administrativa da ABES.
Para Taurion, um dos principais erros das organizações é iniciar projetos pela escolha da tecnologia, sem identificar os problemas empresariais que precisam ser resolvidos.
“Não se começa pela tecnologia”, afirmou.
O especialista questionou o uso da quantidade de agentes de IA implementados como indicador de sucesso. Segundo ele, o desempenho dessas iniciativas deve ser medido pela capacidade de produzir resultados econômicos sustentáveis.
O tema também é abordado em seu livro “IA do Hype ao ROI”, lançado em outubro.
Gustavo Gierun destacou que a transformação digital exige mudanças organizacionais que frequentemente são subestimadas pelas empresas.
“Eu acredito que a maioria das empresas subestima o custo da transformação organizacional”, alertou.
O executivo apresentou a experiência do Distrito, que iniciou sua jornada de inteligência artificial com capacitação interna, testes orientados por indicadores e automação de processos, antes de oferecer esse conhecimento aos clientes.
Na avaliação de Gierun, os investimentos em tecnologia precisam ser acompanhados por mudanças culturais, preparação das lideranças e disciplina de execução.
Tania Cosentino acrescentou que ganhos de produtividade, isoladamente, não são suficientes para garantir diferenciação competitiva.
A executiva defendeu que as empresas utilizem seus próprios dados, conhecimentos e processos para desenvolver produtos, serviços e oportunidades de mercado. Entre os exemplos apresentados, citou a aplicação de IA ao conhecimento industrial da WEG e a expansão do iFood para o mercado de crédito destinado a restaurantes.
“O que meu cliente precisa hoje, que eu não estou fazendo, que eu não estou enxergando?”, questionou.
Ao criticar investimentos motivados apenas pelo receio de ficar para trás em relação aos concorrentes, resumiu: “FOMO não é uma decisão estratégica”.
iFood já utiliza mais de 10 mil agentes de inteligência artificial
A aplicação prática da IA agêntica foi discutida no painel “A indústria na era dos agentes: o que muda na operação, na cadeia e no cliente”, moderado por Silvia Bassi, publisher da The Shift.
O encontro contou com Roberta Ezar, sócia de Digital, Data e Analytics da EY; Rafael Borger, sócio e Head de Produto e Inovação do iFood; e Paulo Cocato, gerente executivo de Dados & AI da Motiva.
Durante o debate, Borger revelou que o iFood já utiliza mais de 10 mil agentes de inteligência artificial, empregados em atividades que incluem automação de processos internos, apoio à gestão de restaurantes e desenvolvimento de novas experiências para consumidores.
O executivo também informou que a companhia destina 50% da verba de desenvolvimento individual à capacitação em IA, buscando ampliar o conhecimento e a utilização da tecnologia entre seus profissionais.
Apesar da expansão dessas aplicações, Roberta Ezar alertou que o número de agentes implementados não deve ser confundido com retorno efetivo para os negócios.
“Quantidade de agentes é uma métrica de adoção, não uma métrica de valor”, afirmou.
Segundo a especialista, a utilização de agentes em escala exige integração de dados, arquitetura tecnológica, segurança e definição clara das responsabilidades atribuídas a cada sistema.
“A governança tem que ser by design, ela não vem para travar, ela vem para apoiar”, acrescentou.
Na Motiva, a estratégia envolve concentrar as aplicações de IA em uma plataforma interna, permitindo que o conhecimento gerado pelos agentes seja incorporado ao patrimônio tecnológico da organização.
Paulo Cocato explicou que a tecnologia pode apoiar atividades como análise de contratos, compras e processos operacionais, mas ressaltou que os níveis de autonomia devem considerar os riscos envolvidos em cada operação.
“Ele não é um chatbot, no final ele age”, afirmou.
Em processos críticos, especialmente aqueles relacionados à segurança de funcionários e usuários, o executivo defendeu a manutenção da supervisão humana sobre as decisões.
O debate mostrou que, embora os agentes autônomos possam ampliar a eficiência operacional e transformar o relacionamento com clientes e parceiros, sua adoção depende de governança, qualidade dos dados e preparação das equipes.
ABES Summit também discute soberania digital e futuro do trabalho
A programação do ABES Summit 2026 continua durante a tarde com discussões sobre visibilidade das marcas em sistemas de inteligência artificial generativa, soberania digital, financiamento à inovação e transformações no mercado de trabalho.
O encontro será encerrado com a entrega das demais categorias do Prêmio Brasil, País Digital, iniciativa que reconhece projetos relacionados à transformação digital.
O evento conta com patrocínio de AlmaViva Solutions, Embrapii, Finep e Skyone.
