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O novo normal do comércio mundial 

Mudanças na política comercial dos EUA desafiam exportadores brasileiros e redesenham as relações comerciais globais 

Desde o retorno do presidente Donald J. Trump à presidência, em janeiro de 2025, uma série de tarifas foi implementada para a maioria dos países, incluindo aliados tradicionais dos Estados Unidos. Pautado na política America First, o “tarifaço”, como ficou popularmente conhecido no Brasil, visa reanimar a indústria manufatureira norte-americana, bem como reestruturar a balança comercial deficitária do país. Essas medidas também ganharam motivações políticas, como relatado nos casos do Brasil e, mais recentemente, na ameaça de suspensão das relações comerciais com a Espanha.

Estrutura tarifária dos EUA

Diversas seções da legislação comercial foram invocadas para autorizar a imposição dessas tarifas, em grande parte pela primeira vez na história americana. Ao longo de 2025, as alíquotas adquiriram características setoriais mais específicas, visando beneficiar a industrialização dos EUA em setores-chave.

Além disso, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) iniciou investigações com base na Seção 301 sobre a sobrecapacidade industrial em dezesseis economias, além da incapacidade de sessenta parceiros comerciais globais de proibir, de forma eficaz, a importação de produtos fabricados com trabalho forçado.

Tabela 1. Estrutura Tarifária dos EUA (2025–2026)  

Tipo / Instrumento  Estrutura Original (2025)  Motivos / Objeto de Investigação  Base Legal (2025)  Status e Pivot Legal (2026)  Base Legal (2026) 
Reciprocidade / Tarifas Gerais  11%–50% (base de 10% + adicionais por país).  Reequilibrar déficits comerciais e exigir acesso a mercados equivalente ao dos EUA.  IEEPA (Decreto 14257)  Invalidada pela Suprema Corte.Substituída por sobretaxa global temporária de 10% a 15%.  Seção 122 (Trade Act 1974) 
Fentanil e Migração  25% (México/Canadá); 10%–20% (China).  Pressionar vizinhos a conter fronteiras e interromper o fluxo de precursores químicos.  IEEPA (Decretos 14193, 14194, 14195)  Invalidada pela Suprema Corte.Coberta temporariamente pela sobretaxa da Seção 122.  Seção 122 (Trade Act 1974) 
Sanções Secundárias  Tarifas de 25% sobre terceiros que negociam com Irã/Rússia.  Forçar aliados a escolher o mercado dos EUA e drenar fundos de guerra de regimes sancionados.  IEEPA (Decreto 13846)  Invalidada para tarifas. O bloqueio financeiro e de ativos continua ativo via IEEPA.  Seção 122 (para tarifas); IEEPA (para bloqueios) 
Ameaça aos BRICS / Dólar  Ameaça de 100% sobre membros dos BRICS.  Coibir a “desdolarização” e o uso de moedas rivais no comércio internacional.  IEEPA  Invalidada. O Presidente não pode usar a IEEPA para impor tarifas de arrecadação de receita.  Requer nova legislação 
Sobretaxa Global de Importação  Proposta no final de 2025 como plano B.  Enfrentar déficits graves no balanço de pagamentos internacionais.  Seção 122 (Trade Act 1974)  Ativa desde Fev/2026. Serve como o principal suporte legal temporário para manter as tarifas globais.  Seção 122 (Trade Act 1974) 
Trabalho Forçado (Nova Seção 301)  Investigações do USTR cobrindo 60 economias.  Falhas em proibir a importação ou combater o uso de trabalho forçado em cadeias de suprimento.  N/A (Migrou para a Seção 301)  Ação Final Implementada (23/Jul/2026):Tarifas de 10% a 12,5% entraram em vigor em 24 de julho de 2026.  Seção 301 (Trade Act 1974) 
Práticas Desleais de Mercado  Investigações do USTR sobre 16 economias.  Excesso de capacidade industrial, distorções de mercado e desequilíbrios estruturais.  N/A (Migrou para a Seção 301)  Investigações Ativas (Iniciadas em Mar/2026): Novo mecanismo primário para substituir as antigas tarifas da IEEPA.  Seção 301 (Trade Act 1974) 
Política “Buy Canadian”  Investigações do USTR focadas no Canadá.  Medidas de compras públicas no Canadá alegadas como encargo discriminatório ao comércio dos EUA.  N/A (Migrou para a Seção 301)  Investigações Ativas (Iniciadas em Mar/2026): Revisão sob o arcabouço do CUSMA/USMCA e Seção 301.  Seção 301 (Trade Act 1974) 
Práticas Comerciais Próprias / China  100% em EVs chineses; 50% em painéis solares/seringas.  Combater roubo de propriedade intelectual, transferência forçada de tecnologia e subsídios estatais.  Seção 301 (Trade Act 1974)  Ativa e inalterada. Não foi afetada pela decisão da Suprema Corte sobre a IEEPA.  Seção 301 (Trade Act 1974) 
Segurança Nacional  50% Aço/Alumínio; 25% Automóveis/Semicondutores.  Proteger cadeias de suprimento domésticas críticas para a defesa e infraestrutura.  Seção 232 (Trade Expansion Act 1962)  Ativa e inalterada.Mantida independentemente das decisões sobre a IEEPA.  Seção 232 (Trade Expansion Act 1962) 
Comércio Discriminatório  Tarifas de até 50% ou proibição total de importação.  Retaliação contra países que taxam empresas dos EUA (ex: Impostos sobre Serviços Digitais).  Seção 338 (Tariff Act 1930)  Ativa / Pouco testada. Mantida como “Plano B” para ações de retaliação direcionadas.  Seção 338 (Tariff Act 1930) 
Salvaguardas Globais  Proteção temporária para setores específicos.  Facilitar o ajuste da indústria norte-americana contra o surto de importações.  Seção 201 (Trade Act 1974)  Ativa. Aplicada pontualmente (ex: painéis solares e eletrodomésticos).  Seção 201 (Trade Act 1974) 

A Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) serviu como o principal pilar administrativo para a maioria dos novos direitos aduaneiros. Em contrapartida, em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA invalidou o uso da IEEPA como fundamento jurídico para a aplicação de tarifas gerais de arrecadação, impedindo temporariamente a cobrança das novas alíquotas até que um novo arcabouço legal fosse estabelecido.

Diante do bloqueio, o governo dos EUA promoveu uma reestruturação jurídica, acionando temporariamente a sobretaxa da Seção 122 do Trade Act de 1974 e instaurando investigações abrangentes sob a Seção 301. Esse processo culminou em novos anúncios formais e na implementação definitiva das alíquotas em julho de 2026.

Em adição ao contencioso comercial em andamento, o governo norte-americano expandiu suas pressões regulatórias para incluir o México, devido às importações de alface contaminado, e o Canadá, em virtude dos impactos transfronteiriços dos incêndios florestais.

Estudo de caso: o impacto no setor de biscoitos, massas e bolos do Brasil

Em entrevista exclusiva, Rodrigo Iglesias, diretor internacional da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (ABIMAPI), compartilhou a dificuldade de substituir os Estados Unidos como principal mercado do setor.

“Cerca de um quarto das exportações do nosso setor vai para os Estados Unidos, tornando-o o nosso principal destino. Mesmo com as tarifas de 2025, os EUA continuaram sendo o nosso maior mercado, pois o nosso segundo maior comprador, o Paraguai, ainda fica bastante atrás.”

Rodrigo Iglesias acrescenta que o panetone, um dos principais carros-chefe do setor, sofreu uma retração de 17% nas vendas para o mercado norte-americano em 2025.

Com as novas tarifas anunciadas recentemente, que afetam mais de 4 mil produtos da pauta exportadora brasileira com alíquotas que chegam a 50%, além da tarifa adicional de 12,5% referente ao trabalho forçado, ainda é difícil prever a dimensão total do impacto na economia brasileira.

Ainda que o Brasil se encontre atualmente em uma posição mais resiliente para mitigar esses impactos, o cenário internacional impõe desafios adicionais. Destacam-se a complexidade de acesso ao mercado europeu, apesar do novo acordo entre Mercosul e União Europeia, a importância de evitar uma dependência excessiva do mercado chinês e a necessidade de diversificar mercados e ampliar parcerias comerciais.

O livro “Donald J. Trump e os efeitos no comércio internacional: Geopolítica, guerras comerciais e transformação institucional” (Donald J. Trump and the Effects on International Trade: Geopolitics, Trade Wars and Institutional Transformation), com lançamento previsto para agosto, traz uma análise detalhada do “tarifaço” aplicado a diversos países, como Brasil, China e Canadá.

A obra inclui estudos de caso sobre setores estratégicos, como a indústria automotiva, semicondutores e terras raras, além de entrevistas exclusivas com especialistas das Nações Unidas, da alfândega dos Estados Unidos, do MIT e de diversas áreas relacionadas ao comércio internacional. A entrevista completa do diretor da ABIMAPI também integra a publicação.

Prof.ª Dra. Renata Thiebaut é pesquisadora do Think Thank da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e professora especializada em inteligência artificial, governança digital e políticas públicas, com atuação voltada aos impactos da tecnologia no futuro do trabalho e na transformação da sociedade. As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação. 

Referências  

Dans, P., & Groves, S. (Eds.). (2023). Mandato para liderança: A promessa conservadora [Mandate for leadership: The conservative promise]. The Heritage Foundation. https://static.heritage.org/project2025/2025_MandateForLeadership_FULL.pdf 

Office of the United States Trade Representative. (2026, 11 de março). USTR inicia investigações sob a Seção 301 relativas ao excesso de capacidade estrutural e produção nos setores de manufatura [USTR initiates Section 301 investigations relating to structural excess capacity and production in manufacturing sectors] [Comunicado à imprensa]. https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/march/ustr-initiates-section-301-investigations-relating-structural-excess-capacity-and-production 

Reid, M., Freestone, C., & Haggin, I. (2026, 20 de fevereiro). Decisão da Suprema Corte dos EUA não significa que as tarifas vão desaparecer [US Supreme Court ruling does not mean tariffs are going away]. RBC Economics. https://www.rbc.com/en/economics/us-analysis/us-featured-analysis/us-supreme-court-ruling-does-not-mean-tariffs-are-going-away/ 

Saccomanno, I. (2026, 5 de junho). USTR propõe tarifas de 10% a 12,5% em investigações da Seção 301 sobre a regulamentação de importações produzidas com trabalho forçado [USTR proposes 10% to 12.5% tariffs in Section 301 investigations of the regulation of imports produced with forced labor]. White & Case LLP. https://www.whitecase.com/insight-alert/ustr-proposes-10-125-tariffs-section-301-investigations-regulation-imports-produced 

The Economic Times. (2026, 25 de julho). Trump ameaça tarifas sobre o México por alface estragada e sobre o Canadá por fumaça de incêndios florestais [Trump threatens tariffs on Mexico over bad lettuce, Canada over wildfire smoke]. https://m.economictimes.com/news/international/world-news/trump-threatens-tariffs-on-mexico-over-bad-lettuce-canada-over-wildfire-smoke/articleshow/132627626.cms 

Thiebaut, R., & Selgas-Cors, M. (2026). Donald J. Trump e os efeitos no comércio internacional: Geopolítica, guerras comerciais e transformação institucional [Donald J. Trump and the effects on international trade: Geopolitics, trade wars, and institutional transformation]. Springer. https://link.springer.com/book/9783032344373 

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