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Tecnologia idealizada por policiais penais automatiza presídios de SP e amplia visitas virtuais

Projeto, iniciado há cerca de 15 anos, chegou às 180 unidades do estado e combina automação, controle de circulação e atendimento remoto

Um projeto que começou com o reforço de grades e portas para aumentar a segurança dos policiais penais evoluiu para um sistema de automação presente hoje nas 180 unidades prisionais do Estado de São Paulo. Desenvolvida a partir da experiência dos próprios servidores, a estrutura ganhou novas tecnologias ao longo de aproximadamente 15 anos e passou a apoiar desde a movimentação de pessoas privadas de liberdade até atendimentos e visitas virtuais.

Uma das primeiras oficinas teve início na Penitenciária de Marília. Segundo Dumas Junior, chefe de departamento do Complexo Penal de Marília, a necessidade surgiu com o crescimento do sistema prisional e a busca por mecanismos capazes de proteger tanto os policiais quanto as pessoas atendidas nas unidades. Em vez de partir de uma solução pronta adquirida no mercado, o projeto começou dentro da própria Polícia Penal, com os servidores que conheciam os problemas da operação se juntando a colegas com conhecimentos técnicos para desenvolver as primeiras estruturas.

“Na Penitenciária de Marília esse projeto uniu alguns policiais com conhecimento em serralheria, em tornearia mecânica, em eletricidade, e foram desenvolvendo o modelo que hoje está em prática”, conta.

A preocupação inicial era essencialmente física. Grades e portas precisavam ter robustez suficiente para resistir a situações críticas dentro das unidades. Com o tempo, a estrutura foi incorporando recursos tecnológicos e novas formas de controle.

Antes de ganhar escala, entretanto, as soluções passaram por testes. As primeiras experiências ocorreram em uma oficina e, posteriormente, em setores pequenos, inicialmente com quatro, cinco ou oito portas. “Só depois da avaliação das equipes o modelo começou a ser expandido”, lembra.

Entre as evoluções apresentadas pela Polícia Penal na COP International 2026 estão a abertura automatizada de portas com reconhecimento facial e a possibilidade de intertravamento. De maneira simples, o recurso permite estabelecer uma lógica de segurança na qual uma passagem não é liberada enquanto a outra permanece aberta.

“Se uma porta estiver aberta, a outra não vai abrir. Se tratando de uma passagem de presos, uma certa quantidade de presos, ela nos dá mais essa segurança e faz essa contenção”, explica Dumas.

A automação também precisa considerar o caminho inverso: não pode se transformar em obstáculo quando existe uma emergência. Em uma ocorrência médica, por exemplo, o sistema deve permitir a entrada rápida dos profissionais e a passagem de equipamentos de atendimento.

“Esse sistema tem que estar apto a uma maca, a uma cadeira de roda, à inserção, em determinado momento, desses policiais para poder fazer o pronto-socorro”, afirma.

Da pandemia para a visita virtual

A pandemia de Covid-19 representou outro ponto de virada. A necessidade de distanciamento acelerou a utilização de ferramentas digitais dentro do sistema prisional. Entre elas estava a visita virtual.

Quando as restrições sanitárias terminaram, a tecnologia não perdeu totalmente sua função. A Polícia Penal percebeu que o atendimento remoto resolvia um problema anterior à pandemia: a dificuldade de familiares que vivem longe das unidades ou que, por diferentes razões, não conseguem se deslocar até o presídio.

“Com o atendimento remoto pós-pandemia, o comando da Polícia Penal identificou que nós conseguimos atender uma gama maior de visitantes, a possibilidade maior de visitantes falarem ou verem seus familiares”, explica Dumas.

Ele cita situações bastante concretas, como a de um familiar que pode morar a centenas de quilômetros da unidade ou estar impossibilitado de realizar a visita presencial por uma questão de saúde. “O advento da tecnologia trouxe esse facilitador, tanto para quem executa, que é a Polícia Penal, quanto para os familiares poderem ver os seus entes queridos”, acrescenta.

Como funciona a visita remota

Para quem está do lado de fora, o processo é relativamente simples. A visita segue regras estabelecidas pelo Estado, passa pelos procedimentos de autorização e é agendada. No horário determinado, o familiar utiliza um acesso reservado para realizar a videoconferência com a pessoa presa. “Por meio de um link reservado, esse familiar acessa o link agendado naquele determinado horário e aí faz a visitação, faz o contato com o seu familiar”, explica Dumas.

A operação conta com acompanhamento técnico do profissional de Tecnologia da Informação e Comunicação da unidade. Segundo Dumas, cada estabelecimento possui profissionais de TIC que trabalham seguindo as orientações da estrutura central da Polícia Penal. A infraestrutura empregada, por sua vez, possui mecanismos próprios de proteção.

A visita virtual também não funciona como um sistema destinado a armazenar conversas. Segundo Dumas Junior, comunicações protegidas por sigilo ou reserva, como os atendimentos entre pessoas presas e seus advogados, não podem ser gravadas ou copiadas. “O atendimento com o advogado e com o familiar é reservado. Tudo que tem sigilo não tem cópia, não pode ser gravado, não pode ter cópia”, enfatiza.

Menos circulação e rotina mais organizada

A digitalização trouxe outro efeito menos visível para quem está fora de uma penitenciária: ajudou a organizar a movimentação dentro das unidades.

Um presídio possui uma rotina que envolve atendimentos de psicólogos, assistentes sociais, enfermagem, médicos, dentistas e diferentes setores administrativos. Cada atendimento pode significar movimentar uma pessoa de uma área para outra, operação que precisa obedecer a protocolos de segurança.

Com ferramentas de agendamento e atendimento remoto, parte desses fluxos passou a ser organizada por horários. “Isso nos facilitou a organizar, através de horários, uma escala de atendimentos sem bagunça. Foi um facilitador para organizar os horários e a movimentação dessas pessoas”, diz Dumas.

A mudança alcançou também profissionais externos. Segundo ele, atendimentos de oficiais de Justiça e advogados passaram a utilizar os recursos remotos, reduzindo a necessidade de determinados acessos presenciais à unidade.

De Marília para as 180 unidades

A experiência fomentada em Marília acabou sendo replicada. Com os resultados do projeto, a Polícia Penal estruturou oficinas de automação em suas coordenadorias regionais, formando equipes responsáveis por melhorias, reformas e também por trabalhos relacionados a novas unidades.

“Hoje não tem só a oficina de Marília. Todas as coordenadorias regionais têm uma oficina, uma equipe de automação atuando e trabalhando em melhora, em reformas e até mesmo na constituição de novos presídios”, afirma Dumas.

O modelo também despertou interesse de outros estados. De acordo com o Dumas Junior, equipes de outras unidades da Federação já foram a São Paulo conhecer o projeto. O Distrito Federal, por exemplo, iniciou sua própria oficina de automação após uma dessas visitas.

Para o especialista, existe um diferencial importante em relação a sistemas concebidos exclusivamente por fornecedores externos: quem ajudou a desenvolver a solução conhece o cotidiano de um presídio. “Algumas empresas empreiteiras têm um sistema de automação, mas com um diferencial muito grande, que é a expertise de quem desenvolveu o sistema por ser policiais penais”, destaca.

Atualmente, as 180 unidades prisionais do Estado de São Paulo estão automatizadas. Depois de aproximadamente 15 anos de desenvolvimento, a próxima etapa é aperfeiçoar essa infraestrutura com novas tecnologias.

“Tudo automatizado. E agora a Polícia Penal vem implementando tecnologias para aperfeiçoar esse sistema”, resume.

Tags: COP2026

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