Estratégia, o verdadeiro diferencial da era da IA
Quando a tecnologia deixa de ser exclusividade, a vantagem competitiva passa a depender da capacidade de transformar IA em novos modelos de negócio
Artigo por Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)
Quando a Inteligência Artificial chegou às empresas, a conversa girou em torno da tecnologia: modelos generativos, infraestrutura, capacidade de processamento, automação. Era natural. Toda inovação disruptiva começa pelas ferramentas. Mas essa perspectiva parece estar ficando obsoleta.
A IA deixou de ser mais uma tecnologia incorporada aos processos e passou a reorganizar a própria estratégia dos negócios. O estudo Estratégias Digitais em Alta Performance: os vetores tecnológicos impulsionados pela IA, realizado pela IDC para a ABES, mostra isso com clareza: a IA tornou-se o principal vetor das decisões tecnológicas das empresas. Nuvem, dados, cibersegurança e aplicações corporativas deixam de disputar prioridade entre si e passam a funcionar como uma infraestrutura integrada para que a IA opere com segurança, escala e resultado.
O mesmo estudo revela que 95% das empresas brasileiras já usam IA e que 86% pretendem ampliar seus investimentos em tecnologia em 2026. Ou seja: adotar IA já não diferencia ninguém. O que diferencia é a forma como cada organização reorganiza seu negócio para competir em uma economia orientada por dados e por inteligência artificial.
Muitas empresas ainda tratam a IA como um projeto de eficiência: automatizar tarefas, cortar custos, acelerar processos. São ganhos reais, mas são apenas parte da história e deixarão rapidamente de diferenciar quem usa ferramentas semelhantes. A transformação de verdade começa quando a IA passa a influenciar decisões que antes pertenciam exclusivamente à estratégia. O modelo de negócio continua fazendo sentido? A proposta de valor segue relevante? Como será a relação com o cliente? Que competências vão distinguir uma organização quando todas tiverem acesso às mesmas plataformas, aos mesmos modelos e aos mesmos agentes?
Essa tem sido cada vez mais a questão central. Historicamente, a vantagem competitiva vinha do domínio de tecnologias a que poucos tinham acesso. A IA desmonta essa assimetria em uma velocidade inédita. Se todos podem acessar a mesma tecnologia, a vantagem deixa de estar nela. Passa a estar na capacidade de reinventar modelos de negócio, criar novas experiências para os clientes, transformar a tomada de decisão, desenvolver talentos e construir uma cultura de aprendizado contínuo.
É essa reflexão que orienta o ABES Summit 2026, com o tema “Reinventar para Competir na Era da IA: o que tem valor, o que muda e o que não pode mudar”. A premissa é simples, mas profundamente transformadora: a IA não é uma atualização tecnológica, e sim uma reconfiguração daquilo que gera valor para empresas, clientes e mercados. Por isso, vamos debater IA agêntica, competitividade, soberania digital, governança, formação de talentos e novos modelos de negócio.
A ABES chega aos 40 anos com uma trajetória marcada pela capacidade de antecipar e interpretar as grandes transformações do setor. Acompanhamos e ajudamos a viabilizar a informatização das empresas, a expansão da internet, a computação em nuvem, a transformação digital e a economia de dados, sempre articulando setor produtivo, governo e academia em torno de políticas públicas que preparassem o Brasil para cada nova onda tecnológica.
Essas quatro décadas deixam uma lição: em todos os ciclos, quem obteve os melhores resultados não foi necessariamente quem adotou a tecnologia primeiro, mas quem entendeu mais rápido como ela mudava a lógica do negócio.
Com a IA não será diferente. Novos modelos, agentes e aplicações continuarão surgindo, cada vez mais acessíveis. A vantagem competitiva pertencerá às organizações capazes de transformar tecnologia em estratégia, inovação em valor e mudança em oportunidade. É essa capacidade de reinvenção, muito mais do que a adoção da ferramenta mais recente, que vai definir quem lidera na próxima etapa da economia digital.