Soberania digital: a agenda do país e a lição de casa das empresas
O Brasil precisa de uma estratégia de soberania digital competitiva. As empresas precisam de resiliência operacional. Uma depende da outra, mas são coisas diferentes.
Artigo por Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)
A inteligência artificial colocou a infraestrutura digital no centro da estratégia das empresas. O estudo “Estratégias Digitais em Alta Performance”, feito pela IDC para a ABES, mostra que 95% das empresas brasileiras já usam IA e 86% usam IA generativa. A mesma proporção, 86%, pretende ampliar os investimentos em tecnologia. Nuvem, dados, aplicações e segurança deixaram de ser frentes separadas e passaram a formar uma só base para sustentar a IA.
Isso muda a natureza da dependência tecnológica. Usar IA em escala exige capacidade computacional, data centers, energia, conectividade, dados organizados e gente qualificada. Boa parte disso está fora do controle de quem usa. Um ataque cibernético aparece quando acontece. Uma crise econômica logo aparece nos números. A dependência tecnológica cresce em silêncio e muitas vezes só é percebida quando já virou problema. E aí surge uma pergunta que muitas empresas ainda não se fizeram: o que acontece com o meu negócio se uma dessas peças falhar, ficar mais cara ou mudar de regra?
Essa pergunta tem levado o termo soberania digital para dentro das empresas. O problema é que ele vem sendo usado para coisas muito diferentes. Vale separar duas agendas.
A primeira é uma agenda de país. Na ABES, defendemos o conceito de Soberania Digital Competitiva. Ele não tem nada a ver com fechar o mercado ou substituir fornecedores estrangeiros. A inovação depende de circulação de conhecimento, investimento e cooperação internacional. O que defendemos é que o Brasil tenha capacidade própria de hospedar e processar dados e IA, e que nossas empresas tenham acesso a esses recursos com preço competitivo e segurança jurídica. É uma estratégia de médio e longo prazo, que depende de política pública: atração de data centers, energia limpa e barata, formação de talentos, pesquisa, compras públicas inteligentes, regulação equilibrada e participação ativa do Brasil nas cadeias globais de tecnologia. O Redata, regime especial para data centers, é um exemplo desse tipo de política. Quando um país depende só de capacidade instalada lá fora, cada decisão tomada em outro lugar, sobre chips, energia ou acesso a dados, chega aqui como custo ou restrição. Soberania, nesse sentido, é capacidade de escolha. Um país que só consome tecnologia escolhe pouco.
A segunda é uma agenda de cada organização. Nenhuma empresa vai construir sozinha um data center de IA ou treinar seu próprio modelo de fronteira, e nem deveria tentar. O que ela pode fazer é reduzir sua exposição. Isso tem um nome mais preciso: resiliência operacional diante da dependência tecnológica. É uma estratégia de gestão, feita com as ferramentas que a empresa tem ao seu alcance hoje.
Na prática, resiliência operacional começa com perguntas simples. Onde estão meus dados e sob qual jurisdição? Consigo trocar de fornecedor de nuvem ou de modelo de IA sem parar a
operação? Meus contratos garantem portabilidade, continuidade e uma saída organizada? Estou preparado para uma interrupção de serviço, um aumento de preço ou uma restrição regulatória vinda de fora? Tenho pessoas que entendem o que está sendo usado?
Responder a essas perguntas não exige grandes investimentos. Exige método. Mapear fornecedores críticos, classificar dados, negociar cláusulas de saída, testar planos de continuidade e evitar ficar preso a um único fornecedor quando há alternativa equivalente. É gestão de risco, como qualquer outra, e deveria estar na pauta do conselho e da diretoria, não só da área de TI.
O estudo da IDC mostra onde está um dos gargalos. Apenas 48% das empresas dizem ter dados plenamente estruturados. Outras 49% trabalham com informações parcialmente organizadas. Sem dados em ordem, não há governança, não há portabilidade e não há como trocar de solução com segurança. Quem não conhece os próprios dados também não sabe o que está entregando a terceiros. A maturidade em IA depende menos do acesso à tecnologia e mais da qualidade do ambiente que permite usá-la.
As duas agendas se reforçam. Com mais capacidade computacional instalada, energia competitiva e regras claras, as empresas daqui terão mais alternativas de onde e como operar. Com empresas mais maduras na gestão de dados e de fornecedores, o país terá uma demanda mais qualificada para atrair investimento. O setor de software brasileiro atua nas duas pontas: desenvolve alternativas competitivas e ajuda os clientes a ganhar maturidade.
Mas misturar as duas tem custo. Quando tudo vira soberania, o debate de política pública perde foco e o gestor não sabe o que é responsabilidade dele. É comum ver empresa achar que resolveu o problema só porque contratou um provedor com data center no Brasil, sem olhar contratos nem portabilidade. A empresa não precisa esperar uma política nacional para cuidar da sua resiliência. E o país não pode achar que a soma de empresas bem preparadas resolve sozinha a falta de infraestrutura e de capacidade tecnológica própria.
Esse debate estará no Painel 4 do ABES Summit 2026, no dia 27 de outubro, na FIESP. Queremos reunir governo, empresas usuárias e fornecedores de tecnologia para discutir o que precisa ser feito em cada frente nos próximos anos. Entre os temas estão o investimento em data centers, a oferta de energia para a IA e a forma como as empresas podem medir e reduzir sua dependência.
A ABES chega a esse debate aos 40 anos. Ajudamos a construir o mercado brasileiro de software e acompanhamos cada onda que veio depois: internet, proteção de dados, nuvem e agora IA. Nos últimos anos, a infraestrutura entrou de vez na nossa pauta, com data centers, cibersegurança e economia de dados. Em todas essas fases, defendemos um mercado aberto e competitivo, com espaço e estratégia para impulsinoar as empresas brasileiras.