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O talento que não pode ser automatizado

Na era da IA, vantagem competitiva depende menos da tecnologia disponível e mais da capacidade humana de transformar inteligência em valor 

Por Ricardo Caldas, vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)

A Inteligência Artificial está mudando profundamente a forma como as empresas trabalham. Ela produz textos, desenvolve códigos, analisa documentos, identifica padrões, automatiza processos e apoia decisões em uma velocidade impossível de ser alcançada por qualquer equipe humana.

Diante dessa realidade, uma pergunta costuma dominar o debate: quais profissões vão desaparecer?

Talvez essa não seja a questão mais importante.

O verdadeiro desafio consiste em compreender quais capacidades humanas se tornam ainda mais valiosas justamente porque a tecnologia passou a executar parte das atividades que antes consumiam tempo, esforço e conhecimento especializado.

O estudo “Estratégias Digitais em Alta Performance: os vetores tecnológicos impulsionados pela IA”, realizado pela IDC para a ABES, mostra que a Inteligência Artificial já faz parte da rotina das empresas brasileiras. Segundo a pesquisa, 95% das organizações utilizam IA, 86% empregam Inteligência Artificial Generativa e 86% pretendem ampliar seus investimentos em tecnologia. O levantamento revela ainda que IA Generativa e agentes inteligentes passaram a ocupar o centro das decisões tecnológicas das organizações.

Esses números mostram que a IA deixa rapidamente de ser um diferencial tecnológico para se tornar parte da infraestrutura dos negócios.

Nesse cenário, o que realmente diferencia uma organização deixa de estar apenas na tecnologia que ela utiliza.

Passa a estar na forma como as pessoas utilizam essa tecnologia.

Essa mudança já pode ser percebida nas empresas que conseguem extrair mais valor da Inteligência Artificial. Em muitos casos, elas utilizam exatamente as mesmas plataformas disponíveis para seus concorrentes. O que muda não é o software. É a qualidade das perguntas formuladas, a capacidade de interpretar resultados, o senso crítico para identificar limitações, a habilidade de integrar diferentes conhecimentos e a liderança necessária para transformar informação em decisão.

A Inteligência Artificial amplia capacidades.

Mas continua dependendo das pessoas para definir prioridades, estabelecer objetivos, compreender contextos, resolver conflitos, assumir responsabilidades e tomar decisões orientadas por valores.

Essa percepção ganha ainda mais relevância quando observamos outro dado do estudo da IDC. Embora a adoção da IA seja praticamente universal, apenas 48% das empresas afirmam possuir dados plenamente estruturados, enquanto 49% reconhecem trabalhar com informações parcialmente organizadas. A tecnologia evolui rapidamente, mas sua capacidade de gerar resultados continua diretamente ligada à maturidade das organizações e das pessoas responsáveis por utilizá-la.

Existe ainda outro desafio que acompanha essa transformação.

O Brasil convive há anos com um déficit significativo de profissionais de tecnologia. O Estudo Mercado Brasileiro de Software 2026, da ABES, mostra que a demanda por especialistas continua crescendo em ritmo superior à formação de novos talentos. Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial automatiza parte das atividades operacionais que tradicionalmente serviam como porta de entrada para novos profissionais.

Isso exige uma mudança profunda na forma como as empresas desenvolvem pessoas.

Capacitar equipes deixa de significar apenas ensinar o uso de novas ferramentas. Passa a envolver pensamento crítico, resolução de problemas complexos, colaboração multidisciplinar, criatividade, comunicação, ética e capacidade de trabalhar ao lado de agentes inteligentes.

O próprio conceito de talento começa a mudar.

Durante muito tempo, especialistas eram valorizados principalmente pelo domínio técnico acumulado ao longo da carreira. Hoje, o conhecimento continua sendo indispensável, mas precisa estar acompanhado da capacidade de aprender continuamente, adaptar-se rapidamente e integrar competências diversas em um ambiente que evolui todos os dias.

Essa reflexão orienta o painel de encerramento do ABES Summit 2026, dedicado às competências humanas que permanecem essenciais em uma economia cada vez mais apoiada pela Inteligência Artificial. A proposta parte de uma constatação importante: a tecnologia amplia a produtividade, mas continua dependendo de pessoas capazes de formular estratégias, exercer liderança, construir confiança e transformar conhecimento em inovação.

Essa discussão também ajuda a compreender uma nova etapa da atuação da ABES.

Ao completar 40 anos, a Associação chega a um momento em que desenvolver software e fortalecer empresas continua sendo essencial, mas já não basta. A competitividade brasileira depende cada vez mais da capacidade de formar pessoas preparadas para uma economia em que Inteligência Artificial, dados e automação passam a integrar praticamente todas as atividades produtivas.

É essa visão que inspira iniciativas como a Plataforma RH Tech, criada pela ABES para aproximar empresas, instituições de ensino e profissionais, contribuindo para reduzir o déficit de talentos em tecnologia e aproximar a formação das competências efetivamente demandadas pelo mercado. Mais do que conectar vagas e candidatos, a plataforma fortalece um ecossistema de aprendizagem contínua, reconhecendo que a transformação digital começa pelas pessoas.

Existe uma tendência de imaginar que a Inteligência Artificial reduzirá a importância do trabalho humano. A experiência das empresas mais inovadoras aponta justamente na direção oposta.

Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias, maior passa a ser o valor das competências que elas não conseguem reproduzir. Curiosidade, discernimento, criatividade, liderança, empatia, responsabilidade e capacidade de colaborar continuam sendo atributos exclusivamente humanos. São eles que transformam ferramentas poderosas em soluções capazes de gerar impacto econômico e social.

Na economia da Inteligência Artificial, o maior diferencial competitivo deixa de ser a tecnologia disponível para todos. Passa a ser a capacidade das pessoas de utilizá-la com propósito, senso crítico e visão estratégica. É esse talento, permanentemente humano, que continuará impulsionando inovação, competitividade e desenvolvimento muito depois que a IA se tornar apenas parte da infraestrutura dos negócios.

Participe do ABES Summit 2026!
Os temas abordados neste artigo estarão entre os debates do ABES Summit 2026, que será realizado no dia 27 de outubro, das 8h às 18h, no Teatro SESI/FIESP, em São Paulo. Em sua 16ª edição, o evento celebra os 40 anos da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e reúne lideranças empresariais, especialistas, representantes do poder público e profissionais de tecnologia para discutir o tema “Reinventar para competir na era da IA”.

A participação é gratuita, mediante inscrição prévia. Faça parte dessa discussão e acompanhe presencialmente os debates sobre o futuro da tecnologia e da competitividade brasileira.

Garanta sua inscrição: www.abessummit.com.br

 

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