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O trunfo competitivo muda quando a IA deixa de ser diferencial

À medida que a tecnologia deixa de diferenciar empresas, a capacidade de reinventar o modelo de negócio passa a definir quem continuará relevante no mercado

Por Ricardo Caldas, vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES)

Toda inovação relevante produz um efeito curioso. No início, ela diferenciava poucas empresas. Depois, espalha-se rapidamente pelo mercado. Em pouco tempo, deixa de ser vantagem competitiva para se tornar requisito básico de permanência no jogo.

A Inteligência Artificial está entrando exatamente nessa fase. Até recentemente, incorporar IA significava ocupar uma posição de vanguarda. Hoje, a discussão já não é mais sobre quem utiliza essa tecnologia, mas sobre quem consegue gerar mais valor com ela. O estudo Estratégias Digitais em Alta Performance: os vetores tecnológicos impulsionados pela IA, realizado pela IDC para a ABES, mostra que 95% das empresas brasileiras já utilizam Inteligência Artificial, enquanto 86% pretendem ampliar seus investimentos em tecnologia em 2026. Mais do que uma tendência, a IA tornou-se parte da infraestrutura operacional das organizações.

Os próprios investimentos revelam essa mudança de patamar. Segundo o levantamento, quase sete em cada dez empresas já ultrapassaram a fase de testes e possuem orçamento estruturado para Inteligência Artificial generativa, incluindo treinamento, aquisição de software e serviços especializados. A experimentação ficou para trás. A prioridade agora é escalar resultados.

Essa realidade altera profundamente a lógica da competição.

Produzir conteúdo, analisar grandes volumes de dados, desenvolver software, automatizar processos, criar campanhas, atender clientes ou apoiar decisões estratégicas já não depende exclusivamente de equipes numerosas ou investimentos milionários. Ferramentas que até pouco tempo estavam restritas a poucas organizações tornam-se rapidamente acessíveis a empresas de diferentes portes.

Essa democratização é positiva para a inovação. Mas também elimina parte das vantagens competitivas construídas justamente sobre o acesso privilegiado à tecnologia.

É exatamente essa provocação que orienta o primeiro painel do ABES Summit 2026. O debate parte de uma constatação simples: se todos podem utilizar tecnologias semelhantes, o que continuará tornando uma empresa verdadeiramente diferente?

A resposta dificilmente estará apenas na tecnologia.

O próprio estudo mostra que a Inteligência Artificial passou a reorganizar toda a estratégia tecnológica das empresas. Cloud, dados, aplicações corporativas e cibersegurança deixam de disputar prioridade e passam a funcionar como elementos complementares para que a IA opere com escala, segurança e geração de valor. A tecnologia deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas para se transformar em uma plataforma integrada de competitividade.

Isso muda completamente a forma de pensar os negócios.

Durante muito tempo, organizações conquistaram espaço porque executavam determinadas atividades melhor que seus concorrentes. Algumas possuíam processos mais eficientes. Outras dominavam tecnologias específicas. Havia aquelas que se destacavam pela capacidade analítica ou pela velocidade de atendimento.

A Inteligência Artificial tende a reduzir a distância entre essas competências.

Quando praticamente todos conseguem automatizar processos semelhantes, produzir análises sofisticadas ou utilizar agentes inteligentes, a eficiência deixa de ser diferencial e passa a representar apenas o ponto de partida.

É nesse momento que muitos modelos de negócio começam a ser colocados à prova.

A competição migra para dimensões menos copiáveis: conhecimento profundo do cliente, capacidade de inovação, velocidade de adaptação, construção de ecossistemas, reputação, cultura organizacional e liderança. Empresas que utilizarem IA apenas para acelerar processos existentes poderão obter ganhos de produtividade. Já aquelas que utilizarem essa tecnologia para reinventar produtos, serviços e modelos de negócio vão criar vantagens muito mais difíceis de reproduzir.

Joseph Schumpeter descreveu esse movimento como destruição criadora. A diferença é que, na era da Inteligência Artificial, esse processo acontece em ciclos muito mais curtos. Modelos consolidados deixam de gerar valor em poucos anos, enquanto novas propostas surgem com velocidade inédita.

Ao longo de seus 40 anos, a ABES acompanhou sucessivas ondas de transformação tecnológica, da informatização das empresas à internet, da computação em nuvem à economia de dados. Em cada uma delas, uma lição permaneceu constante: empresas que prosperaram não foram necessariamente aquelas que adotaram primeiro uma nova tecnologia, mas aquelas que compreenderam mais rapidamente como ela alterava a lógica da competição.

A Inteligência Artificial amplia essa mesma dinâmica. Sua maior contribuição talvez não seja automatizar tarefas nem aumentar a produtividade. Seu impacto mais profundo está em obrigar organizações a revisitar aquilo que realmente sustenta seu valor no mercado. Se a tecnologia passa a ser acessível para todos, torna-se indispensável descobrir o que continuará sendo exclusivo.

Na economia orientada por IA, sobreviver dependerá menos da ferramenta utilizada e muito mais da capacidade de reinventar continuamente aquilo que faz uma empresa ser escolhida, mesmo quando seus concorrentes utilizam exatamente as mesmas tecnologias.

Participe do ABES Summit 2026!
Os temas abordados neste artigo estarão entre os debates do ABES Summit 2026, que será realizado no dia 27 de outubro, das 8h às 18h, no Teatro SESI/FIESP, em São Paulo. Em sua 16ª edição, o evento celebra os 40 anos da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e reúne lideranças empresariais, especialistas, representantes do poder público e profissionais de tecnologia para discutir o tema “Reinventar para competir na era da IA”.

A participação é gratuita, mediante inscrição prévia. Faça parte dessa discussão e acompanhe presencialmente os debates sobre o futuro da tecnologia e da competitividade brasileira.

Garanta sua inscrição: www.abessummit.com.br

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