Inovação

Sensores transformam betoneiras em fontes de dados para rastrear concreto

Tecnologia combina telemetria e geolocalização para identificar carregamentos, descarregamentos e possíveis desvios durante o transporte do material

Saber onde está um caminhão é relativamente simples. Descobrir o que está acontecendo com o concreto transportado por ele é uma história diferente. Sensores instalados em betoneiras começam a preencher essa lacuna ao transformar o movimento do tambor em dados que podem ser combinados com a localização do veículo.

A tecnologia permite acompanhar etapas que vão do carregamento ao descarregamento e identificar situações nas quais a operação realizada não corresponde ao planejamento. Em vez de depender exclusivamente de registros manuais ou da conferência das equipes em campo, construtoras e fornecedores passam a contar com telemetria para criar um histórico digital da carga.

A aplicação ganha relevância em um setor no qual a digitalização ainda avança de forma desigual. A Pesquisa Nacional de Maturidade Digital para Incorporadoras e Construtoras, realizada pelo BIM Fórum Brasil com 130 empresas, aponta que 70% das companhias pesquisadas permanecem nos estágios “Tradicional” ou “Iniciante” de maturidade digital.

Na prática, isso significa que atividades executadas diariamente nos canteiros ainda podem gerar poucos dados capazes de mostrar, em tempo real, o que está acontecendo na operação.

“O desafio é transformar uma operação que acontece na rua e no canteiro de obras em uma informação que possa ser acompanhada e verificada. Quando conseguimos saber onde o veículo está, como o tambor está girando e identificar o momento do descarregamento, passamos a ter uma visão muito mais precisa do que aconteceu com aquela carga”, explica Paulo Buriti, gerente corporativo da Corpvs Segurança.

Sensor identifica o sentido de rotação da betoneira

O sistema utiliza um sensor instalado no balão da betoneira e conectado ao rastreador do caminhão. O dispositivo identifica o movimento e o sentido de rotação do tambor, enquanto o sistema de localização informa onde o veículo se encontra naquele momento.

A combinação desses dados permite inferir diferentes etapas da operação.

Se determinada betoneira deveria entregar concreto em uma obra específica, por exemplo, o sistema pode verificar se o caminhão chegou ao endereço programado e se naquele ponto houve uma movimentação do tambor compatível com o descarregamento.

Caso seja identificado um descarregamento em local não autorizado ou outro comportamento fora dos parâmetros configurados, uma notificação pode ser enviada à equipe responsável.

“O ganho está na rastreabilidade. A empresa deixa de depender apenas da informação de quem está em campo e passa a ter uma camada independente de dados para conferir a operação. Isso ajuda a identificar desvios que poderiam passar despercebidos e permite agir antes que uma inconsistência se transforme em uma perda maior”, afirma Buriti.

Geolocalização sozinha não conta toda a história

A diferença em relação ao rastreamento veicular convencional está justamente na possibilidade de acompanhar o comportamento da carga.

Um GPS consegue informar que o caminhão chegou à obra, quanto tempo permaneceu no endereço e qual rota percorreu. Essas informações, isoladamente, não mostram se o concreto foi efetivamente descarregado ou o que aconteceu com o tambor durante o percurso.

Com a telemetria da betoneira, entram na análise dados relacionados ao giro do equipamento, tempo de operação, paradas e descarregamentos.

O sistema também pode emitir alertas para situações como interrupção inesperada do giro, parada não programada ou movimentação fora dos parâmetros definidos. As informações ficam disponíveis para acompanhamento em celular, tablet ou computador e podem ser consolidadas posteriormente em relatórios.

“O que antes era uma operação difícil de enxergar passa a ser mensurável. Isso muda a gestão porque o responsável consegue identificar onde estão os gargalos, entender o comportamento da frota e tomar decisões baseadas no que realmente aconteceu”, destaca Buriti.

Da telemetria ao histórico digital da carga

A utilização desse tipo de sensor mostra uma vertente menos visível da transformação digital da construção civil. Em vez de digitalizar somente projetos, documentos ou processos administrativos, a tecnologia começa a capturar dados diretamente das máquinas utilizadas na operação.

No caso das betoneiras, cada deslocamento e alteração no funcionamento do tambor pode se transformar em um evento registrado pelo sistema.

Quando esses eventos são associados a horário, veículo e geolocalização, torna-se possível reconstruir digitalmente parte da jornada realizada pelo concreto, identificando desde períodos de ociosidade e desvios de rota até descarregamentos fora dos locais programados.

A lógica se aproxima de outras aplicações de Internet das Coisas (IoT) e telemetria industrial, nas quais equipamentos físicos deixam de apenas executar uma tarefa e passam também a produzir dados sobre sua própria operação.

“Quando falamos em digitalização na construção, é comum pensar em soluções complexas. Mas a transformação também acontece quando conseguimos pegar uma etapa tradicional da operação e convertê-la em dados. O sensor transforma o movimento do tambor, a localização do veículo e o momento do descarregamento em informações que podem ser acompanhadas e analisadas”, conclui Buriti.

Para um setor ainda marcado por processos manuais, a mudança é significativa: o concreto continua sendo transportado da mesma maneira, mas sua jornada deixa de ser uma etapa praticamente invisível e passa a gerar um rastro digital que pode ser consultado, comparado e auditado.

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