Inovação

Blockchain transforma metais de lixo eletrônico em tokens de compensação

Projeto da Metalcredits usa tokenização para rastrear ouro, paládio e cobre recuperados de eletrônicos; primeira aplicação chega ao setor de joias

Ouro, paládio e cobre recuperados de celulares descartados estão sendo transformados em ativos digitais registrados em blockchain para compensar o uso desses mesmos metais na fabricação de novos produtos. A tecnologia é a base de uma plataforma desenvolvida pela Metalcredits, que acaba de ganhar sua primeira aplicação no setor joalheiro.

O projeto utiliza blockchain e tokenização para registrar a jornada dos metais, desde a coleta e reciclagem dos resíduos eletrônicos até a emissão de certificados digitais de compensação. A infraestrutura tecnológica é fornecida pela Bitshopp, enquanto a logística reversa e a reciclagem ficam sob responsabilidade da Repense.

A primeira empresa a utilizar o sistema no segmento de joias é a Amarjon, que já compensou o equivalente a todo o ouro, paládio e cobre utilizado em sua produção em 2026 até o momento. A previsão é que toda a produção realizada até o final do ano também seja coberta pelo mecanismo.

Para gerar os créditos utilizados nessa compensação, foram processados 378,45 quilos de sucata de celulares, quantidade equivalente a aproximadamente 4.540 aparelhos e baterias descartados.

Do celular descartado ao blockchain

A tecnologia funciona a partir da digitalização de uma cadeia que começa no mundo físico.

Coletores, cooperativas, recicladores e operadores de logística reversa encaminham equipamentos descartados para triagem e separação. A Repense organiza informações relacionadas à origem, movimentação e validação desses resíduos antes do processo de reciclagem.

Na etapa seguinte, metais presentes nos componentes eletrônicos, entre eles ouro, prata, paládio e cobre, são recuperados para voltar à cadeia produtiva.

A quantidade obtida é medida e vinculada à documentação do processo. Cada lote é então cadastrado na plataforma da Metalcredits com informações como notas fiscais, localização do reciclador, volume tratado, quantidade de metal recuperada, empresa responsável pelo processamento, auditorias e documentos técnicos.

É nesse ponto que o metal recuperado ganha sua representação digital: a plataforma converte a reciclagem realizada em tokens de compensação.

Empresas que utilizam metais em seus produtos podem adquirir esses tokens para compensar volumes equivalentes aos utilizados em sua produção. O dinheiro da transação é enviado para a carteira digital do reciclador, descontadas as taxas da plataforma.

A lógica cria uma segunda camada econômica sobre a reciclagem: além do próprio valor do material recuperado, o processo de recuperação passa a gerar um ativo digital negociável associado ao serviço ambiental realizado.

Certificado reúne mais de 40 informações

Depois que um token é utilizado para realizar uma compensação, o sistema emite um Certificado de Compensação de Metais (CCM).

O documento é registrado em blockchain e vinculado à empresa que realizou a compensação. Segundo a Metalcredits, o mecanismo impede que um mesmo crédito seja utilizado novamente.

Cada certificado reúne mais de 40 dados, metadados e documentos relacionados à trajetória do resíduo, incluindo informações sobre sua origem, processamento, recuperação do metal e compensação.

A blockchain funciona, portanto, como uma camada de registro para conectar as diferentes etapas físicas e digitais da operação.

“Blockchain permite que os dados fiquem conectados em uma mesma infraestrutura, com registros imutáveis, auditáveis e intransferíveis. Isso cria uma camada extra de confiança entre todos os agentes desse ecossistema”, afirma Marcos Mocatino, fundador e Chief Visionary Officer (CVO) da Bitshopp.

Primeiro caso chega às biojoias

A Amarjon será o primeiro caso de aplicação da plataforma no setor joalheiro. Com capacidade para produzir até 42 mil peças por ano, a empresa utilizará os certificados para registrar a compensação dos metais empregados em suas biojoias.

“Nós já tínhamos fornecedores certificados, mas buscávamos uma forma mais robusta de demonstrar o compromisso ambiental associado ao uso de metais em nossas biojoias”, afirma Raquel Neves, Diretora de Marketing da Amarjon. Segundo a executiva, a sustentabilidade sempre fez parte da essência da companhia, que enxerga a responsabilidade sobre os materiais utilizados na fabricação das biojoias como parte do valor simbólico de cada peça. “Isso exige transparência sobre cada etapa do processo. A Metalcredits nos trouxe uma forma técnica e rastreável de mostrar que existe um compromisso real por trás do produto”, diz.

A compensação não significa necessariamente que o metal recuperado dos aparelhos eletrônicos seja utilizado fisicamente nas peças da empresa. O modelo funciona por equivalência: metais são recuperados e reciclados em determinado volume, esse processo gera os tokens e uma empresa pode adquiri-los para compensar quantidade correspondente utilizada em sua produção.

Plataforma quer chegar a outros metais

A Metalcredits pretende agora ampliar a escala do sistema. A meta da startup é compensar, até o fim de 2027, a extração de metais preciosos em volume equivalente à recuperação realizada a partir de 24 mil toneladas de resíduos eletrônicos e integrar 54 recicladoras ao ecossistema.

“O Brasil está entre os maiores geradores de lixo eletrônico do mundo, e grande parte desses resíduos ainda é descartada de forma inadequada. Ao mesmo tempo, há uma demanda crescente por transparência e rastreabilidade sobre a origem e a procedência dos metais preciosos utilizados pela indústria”, afirma Renato Novis, Fundador e CEO da Metalcredits e da Repense.

O executivo destaca que, nesse cenário, a parceria com a Amarjon valida um modelo capaz de transformar a reciclagem de metais em uma infraestrutura de compensação com potencial de aplicação em diferentes segmentos. “A proposta da Metalcredits é conectar empresas que utilizam metais em seus produtos a recicladores, cooperativas, coletores e operadores de logística reversa, criando um caminho para que o serviço ambiental prestado na ponta seja reconhecido, rastreado e melhor remunerado”, diz Novis.

A companhia também estuda expandir a plataforma para metais como ferro, alumínio e titânio. Se o modelo ganhar escala, a mesma infraestrutura de blockchain e tokenização poderá ser utilizada em diferentes cadeias industriais, transformando dados sobre reciclagem e recuperação de materiais em ativos digitais rastreáveis.

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