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TIP Gaming quer transformar assinantes de internet em fãs e criar equipes de e-sports com talentos regionais

Em entrevista ao Guia do PC durante a Futurecom 2026, executivos explicam como a empresa pretende ajudar provedores a superar a guerra de preços, conquistar o público gamer e transformar conectividade em experiência, comunidade e oportunidades de negócios

O que levaria um consumidor a vestir as cores de seu provedor de internet, torcer por uma equipe que carrega o nome da operadora e até pagar mais por um serviço que poderia contratar por um preço inferior? Para a TIP Gaming, a resposta está em uma transformação que o setor de telecomunicações ainda não compreendeu completamente: a internet deixou de ser apenas um serviço de conectividade para se tornar parte essencial da experiência, da identidade e das relações sociais de milhões de brasileiros.

Foi com essa proposta que a empresa apresentou sua estratégia durante a Futurecom 2026, realizada entre os dias 6 e 8 de outubro, no São Paulo Expo. Em entrevista exclusiva ao Guia do PC, Rafael Guedes, CEO da TIP Gaming, e Luis Hale, CMO da TIP Gaming, explicaram como a companhia pretende aproximar os provedores regionais da comunidade gamer, desenvolver novos modelos de relacionamento e, em uma etapa mais avançada, incentivar a formação de equipes de esportes eletrônicos com talentos identificados entre os próprios assinantes.

A iniciativa parte de um desafio bem conhecido pelas operadoras: a dificuldade de diferenciar seus serviços em um mercado no qual a competição frequentemente se resume à velocidade oferecida e ao preço cobrado. Na avaliação dos executivos, essa disputa criou um ambiente em que os provedores oferecem conexões cada vez mais rápidas, ampliam seus pacotes de serviços de valor agregado (SVAs) e reduzem margens para conquistar consumidores que, muitas vezes, não percebem diferenças significativas entre as ofertas. A TIP Gaming acredita que a saída está em compreender melhor quem utiliza a conexão e, principalmente, para quê.

O gamer pode pagar mais, mas quer receber mais

Um dos argumentos centrais da estratégia da TIP é o potencial econômico do público gamer. Segundo um estudo mencionado pelos executivos durante a entrevista, jogadores estariam dispostos a pagar até 70% acima do tíquete médio nacional por um plano de internet que realmente atenda às suas necessidades. Na prática, considerando uma mensalidade de R$ 100, esse consumidor poderia desembolsar até R$ 170 por uma experiência de conectividade adequada aos jogos.

Luis Hale, CMO da TIP Gaming

Para Luis Hale, a oportunidade está justamente em substituir a lógica dos descontos por uma proposta de valor que faça sentido para esse consumidor. “A disposição de pagar mais, entretanto, não significa que os jogadores aceitem qualquer produto apresentado como gamer. Trata-se de um público que conhece as características técnicas da conexão, compartilha experiências com outros jogadores e identifica rapidamente quando uma oferta não corresponde às suas expectativas”, defende.

Durante anos, a indústria de telecomunicações construiu sua comunicação comercial em torno da velocidade. Planos de 300, 500 ou 700 megabits, além das ofertas de 1 gigabit, passaram a representar uma espécie de escala de qualidade para o consumidor. Para os jogadores, entretanto, essa lógica é insuficiente. Em partidas on-line, a estabilidade da conexão, a latência e a consistência da comunicação com os servidores podem ser mais relevantes do que a velocidade nominal contratada, desde que exista largura de banda suficiente para a aplicação.

Segundo Rafael Guedes, o problema começa quando um provedor utiliza a palavra gamer apenas como argumento de marketing, sem adaptar efetivamente a experiência oferecida. “O consumidor percebe quando está diante de um plano convencional que recebeu uma nova embalagem comercial. A mudança proposta, portanto, não consiste simplesmente em lançar mais um pacote de internet, mas em compreender o comportamento dos jogadores, suas necessidades técnicas e a maneira como esse público se relaciona com as marcas”, explica.

O cliente gamer já está dentro da base do provedor

Outro aspecto da estratégia apresentada pela TIP Gaming é a identificação de uma oportunidade que costuma passar despercebida pelas operadoras regionais. O consumidor gamer não precisa necessariamente ser conquistado por uma nova campanha de aquisição de clientes — muitas vezes, ele já está dentro da base de assinantes. Pode ser o titular do contrato, um adolescente que mora com os pais, um universitário ou um profissional que utiliza os jogos como principal atividade de entretenimento depois do trabalho.

Essa característica altera a lógica comercial do negócio. “Em vez de concentrar todos os esforços na conquista de novos contratos, os provedores poderiam identificar quais assinantes já pertencem à comunidade gamer e desenvolver ofertas específicas para eles. E há ainda um componente importante na decisão de compra: embora a assinatura esteja frequentemente no nome dos pais, os filhos podem exercer influência decisiva na escolha da operadora, justamente por conhecerem as exigências dos jogos e perceberem quando a conexão compromete uma partida”, explicam os executivos.

Eles também chamam a atenção para a mudança do próprio perfil dos jogadores. “O gamer não é necessariamente um adolescente que passa horas diante do computador. Muitos dos jovens que cresceram com videogames hoje trabalham, pagam suas contas, constituíram família e continuam jogando. Essa evolução amplia o potencial de consumo e exige que as operadoras abandonem estereótipos sobre o segmento”, explica Luis Hale, que acredita existier uma barreira cultural que precisa ser superada antes mesmo do desenvolvimento de novos produtos. “Historicamente, grande parte das empresas de telecomunicações organizou suas estratégias comerciais a partir de indicadores como número de assinantes, velocidade contratada, cobertura e preço. Esses fatores continuam importantes, claro, mas não são suficientes para compreender comunidades que desenvolvem relações específicas com a tecnologia”, analisa.

A TIP Gaming pretende atuar justamente nessa transformação, oferecendo consultoria para ajudar os provedores a identificar perfis de consumidores, construir ofertas e adaptar sua comunicação. A intenção é fazer com que as operadoras deixem de tratar sua base como um conjunto homogêneo de contratos e passem a reconhecer diferentes comunidades, com expectativas e comportamentos próprios.

Um exemplo apresentado durante a entrevista ajuda a dimensionar a distância entre os modelos tradicionais de atendimento e os hábitos das novas gerações. “Quando enfrenta problemas com a conexão, um jogador pode recorrer a canais convencionais de suporte e receber orientações padronizadas, como desligar o modem e aguardar alguns minutos antes de reiniciá-lo. Embora esses procedimentos tenham sua utilidade técnica, a experiência nem sempre corresponde às expectativas de um público habituado à comunicação instantânea e à interação em comunidades digitais. Então, os provedores precisam considerar os ambientes em que seus consumidores já estão presentes. Se o jogador utiliza o Discord diariamente para conversar com amigos, participar de comunidades e organizar partidas, faz sentido avaliar a oferta de atendimento também nessa plataforma. O mesmo raciocínio se aplica à comunicação comercial: em vez de tentar convencer jogadores com campanhas genéricas, as operadoras precisam participar das comunidades, ouvir suas demandas e construir uma presença reconhecida como legítima”, detalham.

Serviços de valor agregado precisam acompanhar os interesses dos jogadores

Os serviços de valor agregado (SVAs) também fazem parte da estratégia, mas com uma abordagem diferente daquela tradicionalmente adotada pelo mercado. Nos últimos anos, provedores passaram a incorporar plataformas de streaming, aplicativos e outros benefícios aos planos de internet como forma de ampliar a percepção de valor. O problema, segundo os entrevistados, é que muitas dessas ofertas são semelhantes, independentemente do perfil do consumidor.

“Um jogador competitivo, uma família interessada em filmes e séries e um assinante que utiliza a conexão principalmente para atividades profissionais podem receber exatamente o mesmo pacote de benefícios. Para a TIP Gaming, essa padronização reduz o potencial de diferenciação”, destacam. A TIP, de acordo com Rafael e Luis, defende que os SVAs sejam selecionados de acordo com os interesses de cada comunidade, incluindo, no universo gamer, plataformas de jogos em nuvem, conteúdos relacionados a animes, histórias em quadrinhos e outros serviços de entretenimento digital.

Entre as soluções mencionadas durante a entrevista está a ABYA, plataforma de cloud gaming que permite executar jogos em servidores remotos e transmitir a experiência para dispositivos compatíveis. Nesse modelo, o processamento gráfico ocorre na infraestrutura da plataforma, reduzindo a necessidade de equipamentos locais de alto desempenho. O usuário pode acessar jogos sem depender necessariamente de um computador gamer ou console dedicado, embora a qualidade da experiência continue condicionada à compatibilidade dos dispositivos e às características da conexão.

Para Luis Hale, a combinação entre conectividade adequada e serviços associados aos interesses do consumidor permite construir uma oferta mais coerente do que simplesmente acrescentar benefícios genéricos a um plano tradicional. “Nossa proposta é que o provedor compreenda o universo cultural de seus assinantes e ofereça produtos que efetivamente façam parte de seus hábitos de consumo”, explica.

De assinantes a torcedores, a próxima etapa

Se a identificação de consumidores e a adaptação dos serviços representam o início da estratégia, a etapa seguinte é ainda mais ambiciosa. A TIP Gaming pretende incentivar provedores regionais a desenvolver suas próprias equipes de esportes eletrônicos, utilizando talentos identificados entre os assinantes. A proposta parte do reconhecimento de que jogadores com potencial competitivo podem estar espalhados por cidades brasileiras, inclusive em localidades distantes dos grandes centros que concentram organizações profissionais de e-sports.

Rafael Guedes, CEO da TIP Gaming

Na avaliação de Rafael Guedes, os provedores possuem duas vantagens importantes para desenvolver esse modelo: conhecem suas regiões de atuação e já mantêm relacionamentos comerciais com as comunidades locais. “A ideia é utilizar essa proximidade para identificar jogadores, estimular a participação em atividades competitivas e, posteriormente, formar equipes que representem as marcas das operadoras”, descreve.

A estratégia também oferece uma possibilidade de desenvolvimento regional. Com a ampliação da conectividade e das atividades digitais, jogadores que vivem fora das capitais podem participar de comunidades competitivas sem necessariamente abandonar suas cidades de origem. A formação de equipes locais pode, de acordo com os executivos, ampliar a visibilidade desses talentos e criar novas oportunidades de participação no ecossistema de games.

A inspiração para o projeto surgiu também de uma experiência relatada pelos executivos durante uma visita a uma competição de e-sports em São Paulo. Na ocasião, observaram um torcedor da organização Vivo Keyd Stars acompanhando uma partida com o corpo pintado nas cores da equipe e gritando o nome da marca. A cena provocou uma reflexão: como uma empresa associada originalmente à prestação de serviços de telecomunicações poderia despertar uma manifestação de pertencimento semelhante à observada entre torcedores de clubes esportivos?

Para a TIP Gaming, a resposta está na construção de vínculos que ultrapassam a relação tradicional entre fornecedor e cliente. “Um consumidor que se identifica com uma comunidade, acompanha seus representantes e participa de suas atividades passa a estabelecer uma conexão emocional com a marca. Essa relação pode influenciar a fidelização, a recomendação de serviços e o interesse por outros produtos oferecidos pela operadora”, filosofam. Seguindo essa lógica, os provedores regionais possuem condições favoráveis para explorar essa dinâmica, justamente porque atuam em territórios definidos e podem construir relações mais próximas com seus consumidores. “A proposta não é reproduzir necessariamente a estrutura de grandes organizações profissionais, mas desenvolver comunidades e iniciativas competitivas compatíveis com a realidade de cada região”, defendem.

Uma nova oportunidade para o mercado de telecomunicações

A expansão dos esportes eletrônicos trouxe novas possibilidades profissionais para além da atividade de jogar. Organizações competitivas dependem de profissionais de tecnologia, produção audiovisual, comunicação, marketing, gestão de comunidades, organização de eventos e outras especialidades. Durante a entrevista, os executivos destacaram que o mercado já movimenta remunerações expressivas para determinados atletas profissionais — e, nesse contexto, a participação de provedores regionais pode contribuir para aproximar talentos locais de oportunidades profissionais e fortalecer iniciativas relacionadas à economia digital. Há também uma conexão direta com o negócio das operadoras: quanto maior a relevância dos jogos e dos serviços digitais no cotidiano dos consumidores, maior tende a ser a importância de uma infraestrutura de conectividade confiável.

“A proposta da TIP Gaming evidencia uma transformação que ultrapassa o universo dos jogos eletrônicos. Durante décadas, o crescimento dos serviços de internet esteve associado à ampliação da cobertura e ao aumento das velocidades disponíveis. Com a evolução das redes, entretanto, a diferenciação comercial tende a exigir outros atributos, como qualidade de experiência, relacionamento, personalização e conhecimento do consumidor. O público gamer representa justamente um ponto de partidamuito interessante porque reúne consumidores conectados, exigentes e habituados a compartilhar experiências. E essa lógica pode ser aplicada a outros segmentos, desde comunidades interessadas em entretenimento até públicos com necessidades específicas de conectividade e atendimento. Entretanto, o desafio está em abandonar a ideia de que todos os assinantes utilizam a internet da mesma maneira., porque na prática um plano de conectividade pode ter significados completamente diferentes para quem trabalha remotamente, acompanha transmissões esportivas, utiliza serviços de streaming ou participa de competições on-line…”, explicam.

A estratégia apresentada pela TIP Gaming durante a Futurecom 2026 procura justamente transformar essas diferenças em oportunidades de negócio. Mais do que vender internet para jogadores, a empresa quer ajudar os provedores a compreender o universo gamer, participar de suas comunidades e criar relações capazes de transformar clientes em defensores das marcas. “Acreditamos que em um futuro bem próximo teremos jogadores representando seus provedores regionais e torcedores vestindo as cores da empresa que fornece a conexão de suas casas nas competições de jogos eletrônicos. Para a TIP Gaming, o verdadeiro diferencial competitivo não está apenas na quantidade de megabits entregue ao consumidor, mas no valor que essa conexão representa em sua vida”, concluem.

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