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IA no crédito só funciona com accountability algorítmica

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Artigo por José Tadeu do Valle De Chiara, superintendente jurídico do Grupo Multiplica

Nos últimos anos, a avaliação financeira passou por uma transformação profunda, possivelmente sem precedentes desde as primeiras décadas do século XX. Processos antes baseados em planilhas extensas, leitura manual de balanços e ciclos longos de investigação passaram a incorporar modelos preditivos, scores automatizados e machine learning capazes de cruzar grandes volumes de informação em poucos segundos. A combinação entre dados contábeis, histórico de pagamentos e indicadores setoriais ampliou a capacidade de identificar riscos potenciais, permitindo reconhecer padrões que antes demoravam muito mais tempo para aparecer nas análises tradicionais.

O avanço dessas tecnologias, no entanto, não altera um princípio central das atividades financeiras. Decisões que envolvem recursos permanecem vinculadas à responsabilidade de quem conduz cada estrutura de financiamento. Plataformas digitais ajudam a organizar informações e apontam sinais de alerta, mas compreender o significado desses sinais exige interpretação jurídica, entendimento do ambiente econômico e visão estratégica sobre o funcionamento real das empresas. Ferramentas algorítmicas ampliam o alcance da análise financeira, enquanto o julgamento profissional conecta os dados à realidade concreta dos negócios.

A presença crescente da inteligência artificial nas rotinas de avaliação trouxe para o setor um conceito que ganhou relevância no debate financeiro: accountability algorítmica. A expressão descreve a necessidade de garantir rastreabilidade e responsabilidade em processos que utilizam tecnologia automatizada como suporte analítico. Modelos aplicados na avaliação de risco precisam ser compreensíveis, auditáveis e supervisionados, permitindo identificar com clareza quais premissas levaram a determinada recomendação técnica.

Alcançar esse nível de transparência exige que parâmetros estatísticos sejam registrados, que métodos matemáticos passem por validação independente e que trilhas de auditoria permitam reconstruir o caminho percorrido pelos algoritmos ao gerar seus resultados. Procedimentos de backtesting ajudam a comparar previsões com dados históricos, enquanto especialistas analisam os alertas produzidos pelas plataformas antes de qualquer decisão relevante. O objetivo não é limitar o uso da tecnologia, mas garantir que soluções automatizadas permaneçam integradas às estruturas de governança responsáveis por orientar escolhas financeiras.

A importância dessa integração se torna ainda mais evidente no middle market. Empresas desse segmento costumam crescer com rapidez, revisam estratégias de financiamento com frequência e respondem de forma intensa às mudanças do ambiente econômico. Indicadores isolados raramente explicam por completo a trajetória de negócios que operam em ciclos acelerados de expansão, investimento e reorganização de capital.

Sinais identificados por modelos analíticos ganham utilidade quando interpretados dentro do ecossistema empresarial. Instrumentos capazes de cruzar desempenho contábil, comportamento de pagamentos e variáveis macroeconômicas formam painéis que revelam tendências financeiras e possíveis sinais de deterioração. Esses elementos orientam a investigação sobre cada companhia, mas a definição da estratégia depende da visão humana, que conecta os dados à dinâmica do setor e às características específicas de cada estrutura.

Mudanças desse tipo também levaram instituições financeiras a rever suas estruturas de governança. Sistemas automatizados passaram a levantar hipóteses em segundos, que depois são avaliadas a partir das características de cada negócio, enquanto comitês de crédito discutem diferentes cenários antes de decidir sobre a concessão de financiamento. Reguladores também passaram a exigir critérios mais claros para processos apoiados por tecnologia. Esse movimento ocorre em um mercado no qual, segundo a “Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025”, realizada pela Deloitte, cerca de 82% dos bancos no Brasil já utilizam inteligência artificial generativa em suas operações.

Quanto mais sistemas inteligentes passam a fazer parte da rotina da análise de crédito, maior se torna a necessidade de organizar esse uso com clareza e responsabilidade. A accountability algorítmica cumpre esse papel ao garantir que os modelos utilizados sigam critérios verificáveis, que as decisões possam ser acompanhadas e que exista supervisão adequada. A inteligência artificial acelera processos e até fecha contas em questão de milésimos, entretanto quem precisa responder por ela continua sendo nós.

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