Artigo por Jorge Sukarie, conselheiro da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e fundador e CEO da Brasoftware
Há uma narrativa confortável sobre transformação digital: a de que falta tecnologia, ou orçamento, ou fornecedor. Os dados do mais recente estudo da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), em parceria com a International Data Corporation (IDC), desmontam essa explicação. O principal obstáculo apontado pelos próprios executivos brasileiros não está na infraestrutura — está na cultura.
Quando perguntadas sobre os maiores desafios para digitalizar seus negócios, as empresas colocam o mindset de inovação em primeiro lugar (34%), à frente de cibersegurança, sistemas legados e falta de talentos. E há um dado ainda mais revelador: ao listar os fatores que aceleram a digitalização, apenas 9% mencionam a cultura digital-first. É o item menos reconhecido como motor — justamente aquele que, na prática, decide o sucesso de tudo o mais.
O contraste com os investimentos é gritante. O Brasil tem capital, tem um ecossistema maduro com mais de 41 mil empresas de software identificadas e tem lideranças que já entenderam que tecnologia é investimento estratégico, não centro de custo. Mais da metade das organizações já possui objetivos e casos de uso claros para inteligência artificial. E, no entanto, os demais pilares necessários para escalar — governança, estruturas de colaboração entre humano e máquina, segurança resiliente — permanecem todos abaixo de 40%.
O que esse desequilíbrio mostra é um hiato entre intenção e execução. Definir onde usar a tecnologia é a parte fácil. Construir as condições organizacionais para que ela funcione em escala — dados confiáveis, processos redesenhados, equipes preparadas, confiança institucional — é o trabalho difícil, e é o que separa quem experimenta de quem transforma.
Isso desloca a responsabilidade. A transformação digital deixa de ser um projeto da área de TI e passa a ser uma agenda de liderança. Não é o diretor de tecnologia, sozinho, que muda a mentalidade de uma organização: é o corpo executivo que decide tratar dados como ativo, errar rápido como método e capacitação como prioridade orçamentária.
A próxima fase da digitalização brasileira não será vencida com mais licenças ou mais servidores. Será vencida pelas empresas que tiverem coragem de encarar o gargalo onde ele realmente está — na cultura — e de tratá-lo com a mesma seriedade com que, nas últimas duas décadas, tratamos a infraestrutura.








