Por Ricardo Villaça, Chief AI Officer (CAIO) da DLR AI
A aceleração da Inteligência Artificial (IA) no Brasil revelou um paradoxo no ambiente de negócios. Embora o país figure na liderança global em adoção individual do recurso, a transformação estrutural no ecossistema empresarial ainda caminha a passos lentos. Dados do Leading Tech Report 2026 mostram que mais de 80% das companhias ampliaram a aplicação da tecnologia, mas apenas 31,5% possuem maturidade organizacional e governança para gerar impacto real de negócio.
Essa lacuna entre a empolgação inicial e a entrega efetiva de resultados abriu espaço para o que chamo de “mercado do desconhecimento bem embalado”, cenário em que narrativas comerciais, slogans corporativos e promessas de atalhos têm substituído a engenharia e a evidência na tomada de decisão das lideranças.
O avanço efetivo do setor no país não esbarra apenas em limitações técnicas, mas em barreiras culturais. Historicamente tolerante ao improviso e ao excesso de reverência a apresentações sofisticadas, o mercado local corre o risco de transformar a nova revolução industrial em mais um ciclo de deslumbre importado com baixa captura de valor.
O problema não é haver vendedores de soluções, mas o surgimento de fornecedores que conhecem pouco e de compradores que conhecem menos ainda. Nesse ambiente, a retórica substitui a engenharia e a palavra “IA” passa a funcionar como um verniz de sofisticação sobre projetos frágeis. Em um mundo acelerado, essa fragilidade conceitual representa um atraso estrutural.
Da moda à maturidade estratégica
É urgente mudar a pergunta central do debate. Em vez de focarem apenas em qual tecnologia ou modelo devem contratar, os conselhos e os executivos têm o desafio de questionar que tipo de empresa necessitam se tornar para aprender, decidir e executar de forma mais eficiente.
A IA funciona como um amplificador de capacidades já existentes, pois, se integrada a métodos, dados e clareza estratégica, gera vantagem competitiva sustentável. Já em um cenário de confusão e improviso, apenas acelera o desperdício de recursos.
Com mais de 70% dos profissionais brasileiros utilizando a tecnologia no dia a dia, segundo dados do estudo Global Hopes and Fears da PwC, a discussão precisa migrar do encantamento superficial para a eficiência prática. A IA será menos sobre substituir pessoas e mais sobre expor organizações. Ela revelará quem possui método, densidade intelectual e coragem para mudar, e quem apenas decorou a linguagem da vez. Na nova economia, a humildade intelectual deixou de ser uma virtude moral para se tornar infraestrutura competitiva indispensável.
Para que o Brasil supere a armadilha do crescimento lento e da baixa produtividade, o setor corporativo precisa sair da fase de demonstrações encantadoras e focar na construção de capacidades internas e impacto mensurável no sistema produtivo.









