Saúde

IA na saúde esbarra em desafio antigo: a fragmentação dos dados

Interoperabilidade entre sistemas é apontada como etapa essencial para uso de inteligência artificial, automação e análises preditivas por hospitais, clínicas e operadoras

A inteligência artificial avança no setor de saúde, com aplicações que vão de assistentes virtuais e automação de processos a análises preditivas e apoio à tomada de decisões. Mas a adoção de modelos cada vez mais sofisticados encontra um problema bem menos recente: os dados continuam espalhados por diferentes sistemas, plataformas e bases que nem sempre conseguem se comunicar.

O desafio ganha relevância à medida que cresce a digitalização do setor. Mais de 800 milhões de pessoas já utilizam serviços digitais de saúde no mundo, cenário que amplia tanto o volume de informações disponíveis quanto a necessidade de transformá-las em dados estruturados, contextualizados e confiáveis.

Nesse contexto, a interoperabilidade entre sistemas torna-se uma das bases para ampliar o uso da IA. Para hospitais, clínicas e operadoras, não basta adotar algoritmos se informações provenientes de prontuários, laboratórios, sistemas administrativos e diferentes etapas da jornada do paciente permanecem isoladas.

Para Adriano Candido, vice-presidente de Negócios da Softtek Brasil, muitas organizações concentram investimentos na camada de inteligência sem considerar a arquitetura responsável por sustentar o fluxo das informações.

“A tecnologia só consegue entregar valor quando existe um ambiente capaz de conectar informações de forma segura, estruturada e contextualizada. Sem interoperabilidade entre sistemas, os dados permanecem fragmentados e limitam o alcance das iniciativas. Antes de escalar modelos inteligentes, é fundamental construir uma base tecnológica preparada para integrar aplicações, processos e dados em toda a jornada de saúde”, afirma Candido.

O desafio de conectar os dados

A fragmentação é resultado, em parte, da própria estrutura tecnológica do setor. Hospitais e outras organizações de saúde utilizam diferentes plataformas para prontuários eletrônicos, atendimento, gestão hospitalar, laboratórios e faturamento.

Quando esses ambientes funcionam de maneira isolada, uma mesma organização pode conviver com duplicidade de registros, inconsistências nas informações e processos mais complexos para consultar, compartilhar e analisar os dados.

É nesse ponto que tecnologias como APIs, arquitetura de dados, engenharia de software e modernização de aplicações ganham importância. A integração permite que plataformas distintas troquem informações e cria uma camada sobre a qual podem ser desenvolvidos novos serviços digitais e aplicações de inteligência artificial.

Os efeitos também chegam à experiência dos pacientes. Dados compartilhados entre diferentes pontos de atendimento podem reduzir a necessidade de repetir informações e contribuir para jornadas digitais mais contínuas, inclusive em serviços de atendimento remoto.

Da telemedicina à análise preditiva

A interoperabilidade também pode ampliar as possibilidades de automação dentro das organizações de saúde. Entre as aplicações estão sistemas de telemedicina e triagem digital, manutenção preventiva de equipamentos médicos, análise automatizada de exames e ferramentas para identificação de possíveis fraudes.

A disponibilidade de informações mais consistentes também permite cruzar indicadores operacionais, financeiros e tecnológicos. Para ferramentas preditivas e modelos de IA, a qualidade dessa base é particularmente importante, já que resultados dependem diretamente dos dados utilizados para alimentar os sistemas.

Dessa forma, a discussão sobre inteligência artificial na saúde passa a envolver não apenas a escolha dos modelos ou ferramentas, mas a infraestrutura necessária para conectar aplicações e informações que historicamente foram mantidas em ambientes separados.

Segundo Candido, a consolidação de ecossistemas digitais no setor exige justamente uma visão mais ampla sobre infraestrutura e integração. A combinação entre arquitetura tecnológica, APIs e dados conectados pode preparar as instituições para incorporar novas aplicações à medida que elas surgem.

“Não se trata apenas de implantar novas ferramentas, mas de preparar o ecossistema tecnológico para que a inovação possa evoluir junto com a organização. A interoperabilidade cria essa fundação ao conectar sistemas e transformar dados dispersos em informações capazes de apoiar processos, profissionais e novas experiências digitais de forma totalmente integrada”, conclui o executivo.

Com a expansão da inteligência artificial no setor, portanto, parte do desafio está menos nos algoritmos que começam a chegar ao mercado e mais na capacidade de hospitais, clínicas e operadoras de fazer com que seus próprios sistemas conversem entre si. Sem essa base, dados potencialmente valiosos continuam presos em silos, limitando justamente as aplicações que dependem deles para funcionar.

Você também vai gostar

Leia também!