Sustentabilidade

Blockchain transforma lixo eletrônico em compensação de metais preciosos no setor joalheiro

Metalcredits e Amarjon usam tokenização e rastreabilidade digital para compensar ouro, paládio e cobre empregados na produção de biojoias

Resíduos de celulares descartados estão sendo transformados em uma espécie de crédito digital para compensar o uso de metais preciosos na indústria joalheira. A Metalcredits e a Amarjon realizaram a primeira iniciativa do tipo no setor, utilizando blockchain para registrar e rastrear a recuperação dos materiais.

A Amarjon, marca brasileira de biojoias, já compensou 100% do ouro, paládio e cobre utilizados em sua produção em 2026 até o momento e pretende manter a compensação de toda a fabricação até o fim do ano.

Para isso, o projeto recuperou metais presentes em 378,45 quilos de resíduos de celulares, volume equivalente a aproximadamente 4.540 aparelhos e baterias descartados.

A plataforma da Metalcredits utiliza infraestrutura blockchain desenvolvida pela Bitshopp, startup brasileira especializada em blockchain e tokenização de ativos. Já a logística reversa, reciclagem e organização da origem dos resíduos ficam a cargo da Repense.

Da sucata ao token

O processo começa com a coleta e a destinação dos equipamentos eletrônicos para triagem e reciclagem. Metais como ouro, prata, paládio e cobre presentes nesses resíduos são recuperados e podem retornar à cadeia produtiva.

Cada lote é documentado e cadastrado na plataforma da Metalcredits. O registro reúne informações como origem do resíduo, localização do reciclador, quantidade processada, volume de metal recuperado, notas fiscais, auditorias e documentos técnicos.

A partir desses dados, a reciclagem é convertida em tokens de compensação de metais, que podem ser adquiridos por empresas interessadas em compensar os metais utilizados em seus próprios produtos.

Quando esses tokens são utilizados, são emitidos Certificados de Compensação de Metais (CCMs). Registrados em blockchain e vinculados à empresa responsável pela compensação, os certificados não podem ser reutilizados. Segundo a Metalcredits, cada registro reúne mais de 40 dados, metadados e documentos relacionados à jornada do material.

“Blockchain permite que os dados fiquem conectados em uma mesma infraestrutura, com registros imutáveis, auditáveis e intransferíveis. Isso cria uma camada extra de confiança entre todos os agentes desse ecossistema”, afirma Marcos Mocatino, fundador e Chief Visionary Officer (CVO) da Bitshopp.

Tecnologia para rastrear o impacto ambiental

A proposta é usar a tecnologia para conectar o que acontece fisicamente com o resíduo ao seu registro digital. Assim, a recuperação de determinado volume de metal pode ser documentada e associada à compensação realizada por uma empresa.

Para a Amarjon, que possui capacidade para fabricar 42 mil peças por ano e comercializa seus produtos no Brasil e no exterior, a rastreabilidade complementa outras práticas adotadas na cadeia de fornecimento.

“Nós já tínhamos fornecedores certificados, mas buscávamos uma forma mais robusta de demonstrar o compromisso ambiental associado ao uso de metais em nossas biojoias”, afirma Raquel Neves, Diretora de Marketing da Amarjon.

Segundo Renato Novis, fundador e CEO da Metalcredits e da Repense, o modelo também pretende criar incentivos financeiros para quem atua na recuperação desses materiais.

“A proposta da Metalcredits é conectar empresas que utilizam metais em seus produtos a recicladores, cooperativas, coletores e operadores de logística reversa, criando um caminho para que o serviço ambiental prestado na ponta seja reconhecido, rastreado e melhor remunerado”, explica.

O dinheiro obtido com a negociação dos tokens é direcionado à carteira digital do reciclador, descontadas as taxas da plataforma. Dessa maneira, a tecnologia adiciona uma nova possibilidade de remuneração à cadeia de reciclagem.

Modelo pode chegar a outros metais

A Metalcredits pretende ampliar a escala do sistema. Até o fim de 2027, a meta é compensar a extração de metais preciosos em volume equivalente à reciclagem de 24 mil toneladas de resíduos eletrônicos e integrar 54 empresas recicladoras ao ecossistema.

A empresa também avalia expandir a tecnologia para materiais como ferro, alumínio e titânio.

Se o modelo ganhar escala, blockchain e tokenização podem assumir um papel que vai além das aplicações financeiras: criar uma camada digital de rastreabilidade capaz de conectar resíduos, recicladores, metais recuperados e empresas que buscam reduzir o impacto de suas cadeias produtivas.

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